“007 — Sem Tempo Para Morrer” começa com Bond tentando viver sem o toque do telefone e sem a rotina de relatórios, até que uma tarefa aparentemente direta o coloca de volta na estrada. Daniel Craig faz esse retorno sem heroísmo automático, com um 007 que calcula, erra e segue mesmo quando o corpo pede pausa. A cada passo, a missão empurra o personagem para escolhas que encurtam o descanso, exigem malas refeitas e aumentam o risco de depender da pessoa errada.
Na direção de Cary Joji Fukunaga, “007 — Sem Tempo Para Morrer” usa a duração para alternar pancada e conversa, sem esconder a confusão quando o plano muda no meio do caminho. As sequências de ação têm boa leitura de espaço, e a câmera costuma ficar tempo suficiente para o público entender quem corre atrás de quem e por quê. Quando a trama abre para o lado burocrático do espionagem, o filme ganha peso em detalhes simples, crachás, portas que não abrem, reuniões que atrasam e aquela sensação de estar sempre chegando tarde a algum lugar.
Essa escala de operação aparece na dinâmica com aliados e contatos. Bond precisa escolher com quem divide informação, em que ordem e por qual canal, e isso muda o que ele consegue pegar, onde ele consegue entrar e quanto tempo ele perde esperando alguém atender. O filme fica mais vivo quando acompanha essas trocas sem transformá-las em palestra, porque a ação nasce de passos práticos, ligar, insistir, atravessar um corredor, entrar antes de ter certeza, e depois lidar com o que veio junto.
Quando a missão encosta na vida afetiva do protagonista, a história encontra seu melhor ponto de atrito. A relação com Madeleine ganha espaço sem virar ornamento, e Léa Seydoux cresce quando o roteiro a obriga a decidir com o corpo e com a palavra, ficar, sair, esconder, pedir ajuda, encarar o que ficou mal resolvido. Para Bond, isso muda a maneira de agir, ele não está só perseguindo o inimigo; ele tenta manter um vínculo de pé enquanto o trabalho cobra silêncio, distância e decisões tomadas sem consulta.
Nos corredores da MI6, o filme volta a pintar a agência como um lugar de ordem e disputa por cadeira, com figuras que cercam Bond entre apoio e cobrança. A ideia de legado aparece mais como um incômodo prático do que como discurso, quem tem acesso, quem assina, quem recebe a informação primeiro. A tensão profissional vem de ordens que se chocam, de “não” na portaria, de uma mensagem que chega tarde demais e de agir sem ter todos os dados, porque esperar também tem preço.
Safin entra como ameaça de época, ligado a ciência, laboratório e uma ferramenta capaz de transformar erro humano em tragédia rápida. Rami Malek entrega presença e um olhar inquieto, embora o personagem nem sempre ganhe contorno suficiente para sustentar cada virada do enredo. Ainda assim, o inimigo cumpre a função de empurrar Bond para escolhas desconfortáveis, negociar com quem ele não queria, aceitar ajuda com ressalvas e correr sabendo que não dá para controlar todas as consequências.
O roteiro de Neal Purvis e Robert Wade tenta fechar a fase Craig sem reduzir a sessão a recapitulação. Quem acompanhou essa etapa reconhece ecos de “007 — Operação Skyfall” (2012, direção Sam Mendes) e “007 — Spectre” (2015, direção Sam Mendes), principalmente na mistura de ferida pessoal com espetáculo de grande orçamento. O filme amarra passado e presente sem fingir que Bond recomeça do zero, e isso ajuda a dar sentido a reações, desconfianças e escolhas tomadas no calor do momento.
A principal conta vem do excesso. Em alguns trechos, a história volta a pontos já entendidos e alonga explicações, como se o filme refizesse o caminho para garantir que ninguém se perdeu. Quando corta caminho e retorna às perseguições, aos confrontos e às decisões rápidas, o ritmo volta a encaixar e a sessão ganha tração. Como despedida, “007 — Sem Tempo Para Morrer” entrega o pacote que se espera do 007, mas lembra, o tempo todo, que correr tem custo. Ao sair da sala, dá vontade de ajeitar o casaco, guardar o celular e caminhar alguns minutos em silêncio.
Filme:
007 — Sem Tempo Para Morrer
Diretor:
Cary Joji Fukunaga
Ano:
2021
Gênero:
Ação/Aventura/Thriller
Avaliação:
9/10
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Amanda Silva
★★★★★★★★★★
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