Restam dúvidas se a deprê que assola o carnaval do imigrante brasileiro no hemisfério norte é causa ou consequência da falta de sambarilove dos festejos desta época em terras europeias. Mas é inverno, os termômetros ainda teimam em afirmar temperaturas negativas, falta um sol de verdade, e isto tudo cria um conjunto de componentes fundamentais para o carnaval chocho.
Costumo brincar, com indisfarçável dor, que o único bloco que encontro nas ruas da Eslovênia são os blocos de gelo.
Fato é que estes anos todos de estrangeiro me propiciaram experimentar festejos carnavalescos de diferentes tradições, histórias e narrativas. Agora, por exemplo, escrevo esta crônica de Viareggio, cidade italiana conhecida por um carnaval que se parece muito com aquele que estava na origem das escolas de samba do Rio — um desfile pelas ruas. Mas não se engane: embora conte com carros alegóricos, não se ouve samba; e a festa, se tem seu charme poético, é muito mais sisuda do que a versão tupiniquim consolidada.
Em defesa dos foliões que habitam a bota, cumpre enfatizar que as alegorias carregam importante e por vezes necessária sátira política, o que abre fresta para reflexão sobre um mundo bicudo, bélico e extremista. O nosso. Afinal, se o amor não está sendo suficiente para vencer a guerra, que seja com o humor.
Tem confete, tem serpentina. E isto já é algo que me anima. Também tem gente comum fantasiada pelas ruas, o que mostra que o lúdico é possível mesmo no frio.
Se no Brasil o carnaval é o começo oficial do ano, por aqui parece ser o decreto, mais por birra do que por verdade, de que é melhor acabar logo com o inverno porque já deu. Que venha a primavera, então.

