Antes de qualquer gesto de sabotagem, “O Grinch“ estabelece um conflito simples e reconhecível: uma comunidade inteira organizada em torno de um ritual festivo elevado à condição de dogma. Em Whoville, o Natal não é apenas uma celebração, mas um sistema moral. Quem não participa com entusiasmo é visto como anomalia. Isolado acima da cidade, vivendo numa caverna com o cachorro Max, o Grinch observa esse fervor com desprezo crescente. Seu plano de arruinar a data nasce menos de maldade gratuita e mais de uma rejeição consciente à lógica coletiva que o excluiu.
A decisão de narrar a história a partir do Grinch altera de forma decisiva o eixo dramático. Diferente da animação de 1966, em que ele funciona como obstáculo externo à felicidade alheia, aqui o personagem ganha passado, motivações e ressentimentos bem definidos. Interpretado por Jim Carrey, o Grinch é um sujeito moldado pela humilhação pública e pelo excesso de uma cidade que transforma alegria em obrigação. O espectador acompanha sua rotina solitária, seus mecanismos de defesa e, finalmente, a elaboração do plano que envolve invadir Whoville na noite de Natal para roubar presentes, enfeites e símbolos que sustentam aquela encenação coletiva.
A ampliação do material original impõe problemas claros de ritmo. Para sustentar um longa-metragem, o roteiro introduz situações paralelas, gags prolongadas e conflitos acessórios que nem sempre contribuem para o arco principal. A relação entre o Grinch e Martha May Whovier, vivida por Christine Baranski, exemplifica esse excesso: funciona como curiosidade narrativa, mas pouco acrescenta ao entendimento do personagem. Em vários momentos, a sucessão de episódios cômicos dilui a progressão dramática, tornando o percurso irregular e, por vezes, disperso.
Ron Howard aposta em cenários grandiosos e figurinos exagerados para materializar o universo de Dr. Seuss em escala industrial. O resultado impressiona pelo volume, mas raramente pela sugestão. Tudo é explicitado, ampliado, reiterado. Nesse ambiente, Jim Carrey sustenta o filme com entrega física extrema, combinando sarcasmo verbal, distorção corporal e timing cômico preciso. Seu desempenho concentra a energia narrativa e acaba expondo uma fragilidade estrutural: sem ele, o filme teria dificuldade em se manter coeso.
Quando o plano do Grinch é executado e Whoville insiste em celebrar mesmo sem objetos, a mensagem se revela com clareza: o rito sobrevive à mercadoria. Ainda assim, o impacto emocional é menor do que poderia ser, justamente pelo excesso que antecede esse momento. “O Grinch“ não alcança a concisão nem a força simbólica da animação original, mas propõe uma leitura mais amarga da coletividade festiva. Ao deslocar o foco para o excluído, o filme sugere que, às vezes, o verdadeiro ruído não vem de quem odeia o Natal, mas de quem o transforma em espetáculo permanente.
Filme:
O Grinch
Diretor:
Ron Howard
Ano:
2000
Gênero:
Comédia/Fantasia
Avaliação:
9/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★
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