Em “Matrix”, de Lana e Lilly Wachowski, Keanu Reeves interpreta Thomas Anderson, um programador que leva uma vida dupla como hacker sob o pseudônimo Neo. A inquietação com a sensação de que há algo errado com o mundo o conduz ao contato com Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), integrantes de um grupo clandestino que tenta libertar as pessoas de uma realidade simulada. O conflito central nasce quando Neo precisa decidir entre continuar vivendo a ilusão confortável do cotidiano ou confrontar o sistema de dominação das máquinas que mantêm a humanidade inconsciente dentro da Matrix.
A premissa, inspirada em debates filosóficos sobre percepção e livre-arbítrio, ganha corpo numa estrutura de ação precisa. O filme alterna fases de descoberta, treinamento e enfrentamento, como se cada passo de Neo abrisse novas camadas de percepção. Desde o momento em que ele escolhe a pílula vermelha, a narrativa se torna uma sequência de tentativas de compreender e, finalmente, romper as leis que regem aquele mundo artificial. A urgência cresce à medida que agentes liderados por Smith (Hugo Weaving) tentam eliminar os rebeldes e impedir que o sistema seja desestabilizado.
O impacto de “Matrix” não se resume à sua trama. As Wachowski transformaram o modo como o cinema encenava a ação. O uso do “bullet time”, técnica que desacelera o movimento enquanto a câmera gira em torno da ação, criou um novo vocabulário visual. A partir de 1999, cenas de combate, perseguições e explosões foram filmadas sob a influência direta desse efeito, que unia coreografia marcial, fotografia digital e controle absoluto do tempo fílmico. O corpo do herói deixou de ser apenas ágil; tornou-se elástico, quase abstrato, atravessando o espaço como se dobrasse as leis físicas.
A construção do universo também trouxe uma revolução simbólica. As Wachowski partiram da estética cyberpunk para propor uma cidade fria, coberta de tons esverdeados, em contraste com o mundo “real” das máquinas, árido e metálico. Essa oposição visual reforça a dúvida central: o que é mais humano — o sonho controlado ou o deserto da verdade? A fotografia de Bill Pope dá unidade ao contraste, enquanto a trilha de Don Davis e as canções eletrônicas da época ecoam a sensação de ruptura entre corpo e mente.
O elenco principal sustenta o peso das ideias sem perder a fisicalidade. Reeves encarna um protagonista dividido entre o espanto e o aprendizado, cuja transformação depende de aceitar o impossível. Fishburne faz de Morpheus um guia espiritual que mistura sabedoria antiga e obstinação tática. Moss, como Trinity, une precisão física e intensidade emocional, conduzindo Neo em seus primeiros passos de libertação. Já Hugo Weaving oferece uma frieza calculada que transforma o Agente Smith em uma das personificações mais marcantes do poder autoritário digital.
A força dramática do filme está nas decisões. Quando Neo hesita diante da escolha da pílula, a história se abre em dois caminhos possíveis: permanecer na ignorância ou buscar a verdade a qualquer custo. Essa escolha, tão simples e tão definitiva, ecoa por todo o filme e tornou-se uma das imagens mais persistentes da cultura contemporânea. Ao longo da trama, cada avanço implica uma perda: de tempo, de segurança, de identidade. O aprendizado do herói é também o reconhecimento do limite humano frente a um sistema que manipula o próprio conceito de real.
A combinação entre filosofia e entretenimento foi um dos feitos mais discutidos do filme. Referências a Platão, Baudrillard e ao cristianismo convivem com o ritmo das perseguições e tiroteios. Mas o mérito das Wachowski está em integrar essas ideias ao próprio mecanismo da ação. Cada cena de luta é também uma disputa de crenças: a fé no código, na matéria, na vontade. Quando Neo aprende a dobrar as regras da simulação, não se trata apenas de vencer o inimigo, mas de compreender que o poder está no entendimento de que a realidade pode ser reprogramada.
“Matrix” transformou o cinema não apenas pelo espetáculo visual, mas pela reorganização de seus códigos narrativos. Misturou o cinema de artes marciais de Hong Kong, o noir urbano americano e a ficção científica filosófica num mesmo movimento. Essa fusão inspirou incontáveis produções posteriores — de “O Tigre e o Dragão” a “A Origem” — e reconfigurou a forma de pensar o herói digital. Ao mesmo tempo, antecipou debates sobre vigilância, inteligência artificial e simulação que se tornariam centrais nas décadas seguintes.
O filme também redefiniu o modo de filmar o corpo humano na era digital. A coreografia de Yuen Woo-ping levou ao extremo o controle da câmera e do movimento, criando uma dança entre gravidade e tecnologia. Cada salto, cada desvio de bala, cada dobra no espaço evidencia o domínio técnico que sustenta a metáfora filosófica. O resultado é um cinema que pensa com o corpo, em que o gesto é tão importante quanto a ideia.
O legado de “Matrix” permanece visível vinte anos depois. O vocabulário visual que ele inaugurou — câmeras giratórias, casacos longos, lentes escuras, códigos verdes — tornou-se um marco estético. Mas o que o mantém vivo é a inquietação que propõe: e se tudo ao redor for apenas um sistema projetado para impedir que percebamos a verdade? Essa pergunta, formulada com precisão cinematográfica e filosófica, atravessa gerações. No fundo, o filme das Wachowski não fala apenas sobre máquinas; fala sobre a necessidade humana de escolher entre conforto e consciência, entre o sono e o despertar.
Em sua cena final, quando Neo desafia a lógica da Matrix e assume o controle de sua própria percepção, o cinema entra junto com ele nesse novo espaço de possibilidades. O instante em que o tempo se dobra e a câmera o acompanha ainda hoje parece uma porta aberta para o futuro — um futuro que, de algum modo, começou ali.
Filme:
Matrix
Diretor:
Lana Wachowski e Lilly Wachowski
Ano:
1999
Gênero:
Ação/Ficção Científica
Avaliação:
9/10
1
1
Amanda Silva
★★★★★★★★★★
O presidente dos EUA, Donald Trump, manifestou apoio nesta sexta-feira a uma potencial mudança de…
Radu Frentiu, um explorador e fotgrafo de histria natural que vive em Bali, Indonsia, h…
A MSC Cruzeiros divulgou imagens da travessia do navio MSC Magnifica pelo Canal do Panamá,…
As dezenas do concurso número 6953 da Quina foram sorteadas na noite desta sexta-feira (13), em São…
Autoridades do Paraguai receberam pedido da Gol Linhas Aéreas para operar duas rotas, incluindo a…
As 15 dezenas do concurso número 3613 da Lotofácil foram sorteadas na noite desta sexta-feira (13), em…