O que acontece na privacidade indevassável de duas pessoas adultas que concordam em seguir com um relacionamento mesmo diante de dificuldades que se vão avultando decerto intrigaria o mais inventivo dos ficcionistas. O amor passa a se vestir com os farrapos da violência, e assim mesmo, parece conter bem lá no fundo o borrão de encantamento que um dia foi capaz de unir essas duas almas para o que se enunciava como um destino em comum, forte o bastante para fazer frente à dureza da existência. Território mágico onde se condensam apenas as imagens do que deve guardado, uma fração muito limitada da memória reverbera pelo pensamento num giro sem fim, dando a ilusão de que o amor é uma história linear, sem nenhum percalço ou qualquer mal-entendido, conspurcando a lógica e transformando a vida no que gostaríamos que ela fosse, não no que ela é de fato. Passa-se a se fazer um esforço sobre-humano para manter a lembrança dos momentos bons sempre a postos, à guisa de um tranquilizante fortíssimo, o único jeito de suportar os amantes que já não conseguem mais despertar uma emoção mais prazerosa que seja. Ficam os dois a querer que o outro suma, e malgrado isso termine por acontecer, restam contas a acertar que não admitem o cômodo esquecimento.
Dores que resistem ao passar do tempo e inspiram descobertas revolucionárias — e malditas — são a matéria-prima de Leigh Whannell em “O Homem Invisível” (2020), crônica de relações que se estendem para além do suportável e tornam-se um martírio para as partes, por mais que uma delas acuse o golpe mais que a outra e pague um preço alto demais por querer ser feliz. Whannell foi se notabilizando por conferir uma essência de humanidade a roteiros que primam por exaltar aspectos fantásticos ou tecnológicos da história, qualidade que fica mais que evidente em “Upgrade: Atualização” (2018), por exemplo. “O Homem Invisível” reforça esse conceito, amparando-se no texto irretocável de H.G. Wells (1866-1946), um dos autores-símbolo da melhor literatura de ficção científica. O segredo de Wells, decifrado e reproduzido no texto do diretor, é carregar ao máximo nas tintas da imaginação sem abrir mão de desenvolver o conflito íntimo de suas personagens, que não são eclipsadas pelo mote e permanecem em destaque todo o tempo.
Um dos trunfos da narrativa de Whannell e se manter no presente e apresentar os personagens sugerindo que o que se passa na tela não é nenhuma loucura — quando todos sabemos o quão delirante é o livro que lhe deu origem, escrito em 1897, e atual e mesmo profético ao apresentar os assuntos em que vai tocando com a maior cautela. A Cecilia Kass de Elisabeth Moss é a mulher fragilizada em que o diretor investe boa parte de suas esperanças, garantindo um retorno mais ou menos seguro graças ao espantoso domínio que a atriz consegue sobre sua protagonista, desempenho que também se percebe em “Nós” (2019), a distopia racialista de Jordan Peele. Moss, sem dúvida, é a intérprete certa para o papel exato; sua beleza nada óbvia é um capital de que se vale sem pejo no intuito de tornar crível a trama de uma mulher um tanto abandonada que se pega de todo dependente do namorado, Adrian Griffin, o renomado cientista vivido por Oliver Jackson-Cohen — a mim me parece que Jackson-Cohen talvez seja jovem demais (e bonito demais) para ser o bambambã da física que Whannell quer fazer com que pensemos que ele seja, mas sigamos. Depois de trazer as sequências em que se mostra patente o descompasso que reina entre os dois, com diálogos friamente estudados, o filme envereda para o terror que o justifica, momento em que os enquadramentos, ora amplos, ora claustrofóbicos, e a direção de cena meticulosa — principalmente nas passagens em que Cecilia é atormentada pelo ex-companheiro, que volta da morte como um espectro muito real — vão dando a dimensão do calvário que a personagem há de padecer até o desfecho, momento em que o diretor faz pairar uma dúvida aterradora.
Filme:
O Homem Invisível
Diretor:
Leigh Whannell
Ano:
2020
Gênero:
Terror/Thriller
Avaliação:
9/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★
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