Dirigido por Heitor Dhalia e estrelado por Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Sophie Charlotte e Wagner Moura, “Serra Pelada” acompanha dois amigos que deixam a vida para correr atrás do ouro no Pará. Juliano e Joaquim chegam juntos ao maior garimpo a céu aberto de seu tempo, atraídos pela promessa de dinheiro rápido e de mudança de vida. Ali, nada é simples. O que encontram é um buraco de barro regido por violência, hierarquia e disputa, em que amizade, ambição e sobrevivência passam a obedecer à mesma lógica.
Dhalia coloca os dois nesse universo com a narração em off de Joaquim, que organiza a entrada num território já tomado por milhares de homens e por um sistema próprio de mando. A abertura com imagens de arquivo e tons de terra situa a corrida do ouro como episódio brasileiro concreto, sem separar o garimpo da história recente do país. O barro pesa em tudo. Quando Juliano e Joaquim descem à cava e encaram o trabalho bruto, a lama e a massa humana comprimida naquele espaço, a ideia de aventura perde brilho e ganha corpo, ruído e risco.
É dessa matéria que “Serra Pelada” tira sua força, porque o garimpo aparece menos como cenário e mais como máquina de deformação. Juliano, mais impulsivo, se deixa capturar pela lógica do poder local e sobe até se tornar gângster, enquanto Joaquim, chamado de Professor, tenta se agarrar a valores antigos e acaba também contaminado pelo ambiente. O ouro muda os dois. A amizade que levou os personagens ao Pará vai sendo corroída pela mesma febre que rege a cava, e Dhalia acompanha essa transformação sem sair do terreno concreto dos gestos, das escolhas e do custo de cada passo.
Ao redor deles, surgem figuras que dão peso ao sistema de exploração e violência, como Carvalho, chefão do lugar, Lindo Rico, outro operador de poder bruto, e Tereza, ligada ao circuito de sedução e domínio que cerca Juliano. Fora da cava, a vida se espalha em bebida, prostituição e brigas, e esse prolongamento do garimpo para bares, quartos e ruas reforça a sensação de terra sem lei, onde trabalhar, negociar e ameaçar parecem partes de uma mesma rotina. A ordem também vem de fora. A presença desses personagens impede que o filme se feche apenas na amizade central e amplia seu alcance para um retrato de facções, lealdades precárias e mando armado.
Essa ampliação aparece também na filiação ao cinema de gângster, assumida em momentos como a reza na hora do almoço intercalada com ataques, cena em que a estilização avança sem perder o pé no barro amazônico. A combinação entre religiosidade, violência e dinheiro não surge como enfeite, mas como traço de um lugar em que cobiça, ritual e brutalidade convivem no mesmo turno. Tudo vem misturado. Carvalho e Lindo Rico sustentam essa chave ao entrar em cena como operadores de uma ordem mafiosa que engole os recém-chegados e oferece a Juliano uma rota de ascensão inseparável da degradação, enquanto Joaquim observa, narra e tenta resistir, já marcado pela experiência de ter sido transformado por aquele mundo.
“Serra Pelada” cresce quando junta essas linhas e faz do garimpo não só um pano de fundo, mas um motor de conduta. A cava, os barrancos de terra, os ataques, os bares e os quartos de prostituição formam um mesmo corpo social, e cada movimento de Juliano e Joaquim responde à pressão desse espaço. Nada fica de fora. Heitor Dhalia trata o ouro como promessa material ligada a gestos concretos de mando, medo e sedução, sem depender do desfecho para impor o peso do que está em jogo. Ficam a lama nas pernas, o barranco aberto e a amizade enterrada sob a terra remexida.
Filme:
Serra Pelada
Diretor:
Heitor Dhalia
Ano:
2013
Gênero:
Ação/Crime/Drama
Avaliação:
9/10
1
1
Marcelo Costa
★★★★★★★★★★

