O passar dos anos tem feito bem a Jennifer Lopez. Como só poderia mesmo acontecer nos Estados Unidos, a filha de imigrantes porto-riquenhos nascida em Hell’s Kitchen, um dos distritos mais violentos do Bronx, bairro dos mais perigosos de Nova York, domina o mercado fonográfico mundial desde o fim dos anos 1990, quando estourou com “If You Had My Love” (1999), e de quando em quando, flerta com o cinema. De “Jovens em Conflito” (1987), sua estreia na tela grande pelas mãos de Connie Kaiserman (1945-2020), ao arrasa-quarteirão “Anaconda” (1997), de Luis Llosa, e daí para as histórias que de fato merecem ser contadas, Lopez cresceu como artista, sabendo chegar a projetos em que ora arriscava-se, ora mantinha-se na confortável posição de vamp, seduzindo homens e mulheres de oito a oitenta. Essa é a constatação mais imediata em “Dança Comigo?”. Passadas mais de duas décadas do lançamento, em 26 de novembro de 2004, o filme do britânico Peter Chelsom tem envelhecido soberbamente, e sua estrela continua um hit. Mas não só ela.
Sucesso intercontinental
A roteirista Audrey Wells (1960-2018) capta o espírito nostálgico do filme homônimo de Masayuki Suō, lançado oito anos antes, reservando para seu texto um inusitado frescor, outra prova de que os melhores filmes são os despretensiosos. Uma abertura meio relaxada, o segmento mais inorgânico, mostra John Clark, um experto em direito de família, em ruminações sobre os oito mil testamentos que já redigiu ao longo das duas décadas de carreira (e quantos mais virão). Todos os dias, ao fim do expediente, ele deixa o centro de Chicago, pega o trem para o subúrbio, chega a casa, dirige-se à esposa, Beverly, tenta uma conversa com os filhos adolescentes e, nessa noite, sopra o punhado de velas do bolo de aniversário de 55 anos. Há algum tempo, John repara na bela moça que olha pela janela de uma academia de dança do Loop, coração financeiro da Cidade dos Ventos, e ao fim de muitos prós e contras — ele é um advogado, lembre-se —, vai até lá.
História de amor diferente
Com a chegada de John ao estúdio, Chelsom dá boas pinceladas de humor à trama, fitando os tipos exóticos e meio bizarros que orbitam aquele universo. Na porta, ele dá de cara com Bobbie, a quarentona exuberante e um tanto presunçosa interpretada por Lisa Ann Walter, e encaminha-se para a secretaria, onde, claro, é atendido por Paulina, a tal mulher da janela, que informa que a aula para os cavalheiros sem dama começa dali a instantes. Já estão a postos Vern, um sujeito de dois metros de altura e bons 130 quilos que quer emagrecer até o casamento, e Chic, um latino metido a machão que rejeita Bobbie e não cogita a hipótese de ensaiar com um colega do mesmo gênero. Quem dá conta deles é a senhorita Mitzi, a dona da escola, mas Paulina assume quando ela falta, e numa dessas, a instrutora e John se estreitam em coreografias de valsa e rumba, “a expressão vertical do desejo”, como ela solta num dos vários lances de tensão sexual entre os dois. Desde o trem, John está enfeitiçado por ela que diz que não socializa com os alunos, mas está balançada, e o fio condutor da narrativa é como cada um lida com esse sentimento incômodo, que revela-se só uma afinidade espiritual. O vigor físico e aquele carisma acachapante de Lopez galvanizam o que é contado de maneira a fazer todo o ótimo elenco ter sua hora de brilhar, até o magnífico Richard Jenkins, na patética subtrama em que encarna o detetive contratado por Beverly (este, a propósito, não é o melhor trabalho de Susan Sarandon, mas ela se vira bem). Sim, vou falar de Richard Gere. É difícil pensar em outro parceiro para Lopez, especialmente na sequência do campeonato, que, como sói acontecer em produções dessa natureza, justifica o longa e nos fazer esquecer deslizes menores — foi assim em “O Lado Bom da Vida” (2012), de David O. Russell. “Dança Comigo?”, esse libelo antirromântico ao amor, continua em plena forma. E a Jenny da Quebrada também.

