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Na Netflix, Colin Farrell te prende por 1h42 como se você estivesse devendo junto com ele

Na primeira noite, o homem chega com a mala amassada, escolhe um quarto barato e testa a cama com o corpo duro de viagem. “Balada de Um Jogador” começa quando ele encosta a porta, confere o bolso, apaga a luz cedo e calcula quantas horas dá para ficar ali sem levantar suspeita. A janela deixa entrar o barulho da rua, e a decisão de se esconder vira rotina, comer pouco, falar baixo, sair só quando precisa. Ele paga com minutos roubados de sono, porque acorda a cada passo no corredor e refaz na cabeça o caminho até a rua antes do amanhecer.

Na manhã seguinte, Colin Farrell mantém o personagem sentado diante de uma mesa curta, com um copo d’água pela metade e um relógio marcando a demora de quem espera cobrança. Ele repete gestos simples, contar dinheiro, dobrar papéis, checar a maçaneta, e cada ação pede cuidado para não chamar atenção de quem passa do lado de fora. O espectador também trabalha, porque precisa guardar detalhes por vários minutos sem corte rápido e sem informação repetida em voz alta. Quem relaxa perde um olhar que muda o jeito de segurar a carteira quando ele levanta da mesa.

À tarde, ele atravessa a calçada com os sapatos ainda úmidos, entra num táxi e pede para descer antes do destino, evitando repetir a mesma rua. O carro vira uma cápsula de espera, e a escolha de mudar rota cobra tempo, porque ele dá voltas, olha pelo vidro, mede a distância até a porta do hotel e evita encarar o motorista pelo retrovisor. Berger segura a câmera ali por minutos, e o público paga com paciência no assento, acompanhando cada esquina até entender por que aquele desvio não cobra só gasolina, cobra meia hora de espera.

Numa noite de bar, com um copo encostado no balcão e a luz refletindo no vidro, Tilda Swinton entra em cena e obriga o homem a negociar o próprio disfarce. Ele escolhe onde sentar, mede as palavras, espera a hora certa de responder e percebe que uma frase errada pode fechar a porta da frente. A conversa ocupa tempo, e isso pesa para quem assiste, porque a cena segura o silêncio e exige atenção contínua, como alguém parado num corredor com a mão na maçaneta. A cobrança ali é prática, permanecer até tarde com o copo quase intacto e a saída medida.

De madrugada, quando a rua esvazia e o neon continua aceso, Fala Chen cruza o caminho dele com uma moto passando perto e um celular vibrando no bolso de quem trabalha até tarde. Ele aceita ajuda sem confiar, combina horário, muda o ponto de encontro e precisa coordenar passos para não ser seguido, olhando para trás a cada esquina. O custo é físico, ficar acordado quando o corpo pede cama, andar além do necessário, esperar na calçada até a mensagem chegar. Para o público, a cobrança vem em atenção a sinais pequenos, como o brilho do visor no escuro.

No dia seguinte, com a porta do elevador abrindo e fechando como se marcasse turnos, ele volta ao corredor e repete o trajeto, tentando atravessar o saguão sem cruzar o olhar de quem pode reconhecê-lo. A rotina de esconderijo vira trabalho, subir e descer, parar, escutar passos, decidir se corre ou se finge calma com a mão na maçaneta. Essa repetição tem preço para quem assiste, porque exige acompanhar idas e vindas sem atalhos, aceitando que o risco pode estar num detalhe de deslocamento. Quando ele erra o minuto de abrir uma porta, volta ao quarto e perde mais uma hora.

Numa tarde de calor, ele encosta numa mesa e abre a carteira, separando notas, contando troco e decidindo o que pode pagar sem deixar rastro. A conta não é só dinheiro, é acesso, porque cada compra pede um endereço e um horário, e ele escolhe quando aparecer e quando sumir de novo. Ele opta por gastar menos, andar mais, falar menos, e o corpo responde com cansaço, porque a rua exige olho aberto o tempo todo e não dá pausa para cochilo. O espectador acompanha esse cálculo por minutos e sente o peso do controle, porque cada nota contada alonga a cena.

Já tarde, quando as luzes da sala se acendem e a cadeira do cinema devolve o corpo para a rua, a experiência vira medida simples de tempo e energia. Quem entrou na sessão cansado sai com sono maior, porque “Balada de Um Jogador” cobra foco contínuo e não entrega descanso com explicação pronta. Quem topa esse esforço vê um drama de fuga que anda em passos curtos, com decisões cobradas em horas perdidas e caminhos refeitos, sem que aqui se detalhe a virada final. Quem escolhe assistir precisa reservar uma noite com tempo livre e cabeça mais descansada do que o personagem.

Filme:
Balada de Um Jogador

Diretor:

Edward Berger

Ano:
2025

Gênero:
Crime/Drama/Mistério/Suspense

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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