Compreender a vida como ela é de fato, enxergar o mundo em seus pontos mais cruelmente sutis, aceitar que tudo tem um propósito, por mais revoltante e mesmo bizarro que seja, vai se tornando imperativo, uma condição fundamental para se ter alguma chance de sobreviver em meio ao turbilhão de emoções que atropela cada um. Hábitos existem para serem contestados, e quanto mais nos aprofundamos na essência oculta de um organismo, mais perto ficamos de descobrir os detalhes que o podem mudar. É o que fazem Jon Erwin e Brent McCorkle em “Movimento de Jesus” ao desvelar o exótico liame entre a contracultura e a propagação do Evangelho nos Estados Unidos dos anos 1970, dois fenômenos midiáticos de imenso alcance popular. Sem constranger ninguém.
Cristo, o revolucionário
A violência da guerra tem um grande mérito: ressuscitar velhos anseios. No longínquo 1968, manifestações pacíficas contra a Guerra do Vietnã (1955-1975) degringolavam em pancadaria. A polícia reprimia os protestos com violência desproporcional, levando os intranquilos cidadãos da América a dobrar seus joelhos e olhar para o alto. Como Deus apresenta-se sob uma forma curiosamente ambígua, juntando num único ser a constituição sem falhas que o difere de qualquer outra entidade, e a matéria, dúbia e perecível, que conhecemos tão bem, não haveria razão para que estranhassem um jovem excêntrico, barbudo, metido num jeans surrado e com uma capa colorida às costas, falando da paz num certo Jesus de Nazaré. Assim pensava Lonnie Ray Frisbee (1949-1993), que vai cativando jovens também cansados de tanto barulho por nada. Baseado na autobiografia homônima lançada por Greg Laurie e Ellen Vaughn em 2018, o roteiro de Jon Gunn se esforça por chegar até o espírito utópico de Frisbee, sem furtar-se a expor também o pendor messiânico que degringolava em vaidade e alguma egolatria. Greg e Ellen, dois jovens de Newport Beach, Califórnia, perceberam logo que existia ali o começo de uma revolução.
Êxtase
Frisbee ganha espaço e a simpatia de Greg, Ellen e até de Chuck Smith (1927-2013), o líder da Calvary Chapel, uma comunidade cristã sem denominação específica, que o acolhe depois de alguma resistência. O filme cresce ao assinalar as afinidades entre os dois pastores, que tentam salvar seu rebanho do fogo do inferno mediante a conversão — embora recorrendo a métodos tão díspares —, mas peca ao somente arranhar o motivo do rompimento (os créditos finais informam que eles se reconciliaram depois). As atuações de Jonathan Roumie e Kelsey Grammer, nessa ordem, prestam-se a demarcar com nitidez as diferenças de temperamento de Frisbee e Smith, postas em segundo plano em nome da Palavra. Cada qual a seu modo, os dois sabiam muito bem que de uma mesma fonte não sai água doce e água amarga.
Filme:
Movimento de Jesus
Diretor:
Jon Erwin e Brent McCorkle
Ano:
2023
Gênero:
Biografia/Drama
Avaliação:
9/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

