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Na Mubi: a vida nos ensina que não há apenas uma forma de viver e amar

O contato com o streaming nos permitiu conhecer de forma mais abrangente o cinema internacional, e até o nosso próprio. Antes, tudo girava em torno de Hollywood. Agora, o universo se expandiu, revelou que sempre existiram outras camadas; nós é que vivíamos limitados, acomodados, muitas vezes alienados. Não que, antes da Netflix, eu nunca tivesse visto filmes de outras nacionalidades, inclusive brasileiros. Não é isso. Já havia visto vários, mas nada muito autoral, independente ou realmente alternativo. Era preciso se destacar muito para ser visto.

Recentemente, assisti, acredito que pela primeira vez, a um filme georgiano na Mubi. “Blackbird Blackbird Blackberry”, de Elene Naveriani, lançado em 2023, não desceu muito bem. Foi engolido meio engasgado, meio entalado. Dois dias depois, ainda estou em processo de digestão. Aclamado pela crítica e premiado em festivais, o longa-metragem tinha tudo para que eu o amasse. Ainda assim, não sei. Não amei. Cheguei a me perguntar várias vezes se o problema era comigo. Até me dar conta de que se tratava de um choque cultural.

Baseado no livro da escritora feminista Tamta Melashvili, o filme acompanha Etero (Eka Chavleishvili), uma mulher de 48 anos, independente, que trabalha em seu próprio mercadinho em uma pequena cidade do interior. Após vivenciar um episódio de quase morte ao cair de um penhasco enquanto colhia amoras, Etero passa a refletir se está vivendo o suficiente. É a partir dessa sacudida que ela se vê atraída por Murman (Temiko Chichinadze), entregador de mercadorias que a visita semanalmente para abastecer o mercado. Um desses encontros termina abruptamente em uma relação sexual. Não apenas uma relação qualquer, mas a primeira de Etero.

Durante toda a vida, Etero desejou autonomia e independência, fugindo das convenções sociais e invertendo papéis. Nunca quis um homem para cuidar de si. Pelo contrário, sempre quis cuidar de si mesma, e isso fez com que uma antipatia silenciosa brotasse por parte da comunidade. O envolvimento com Murman não rompe com seus ideais. Etero continua sabendo muito bem quem é e o que deseja para si. O sexo surge quase como um experimento: sem romantização, sem grande paixão, sem demonstrações explícitas de afeto.

Com muitos silêncios e uma fotografia que, embora siga uma linha realista, privilegia planos médios e, por isso, cria uma sensação constante de afastamento, o longa me provocou um choque cultural evidente. Eu entendo Etero e defendo o que ela defende, mas não me sinto representada por ela, nem consigo me identificar plenamente. Não consigo me aproximar. Etero está quase sempre com um olhar desconfiado e um semblante rígido. Não consigo atravessar sua casca. Mas talvez esse seja exatamente o ponto do filme: olhar para uma mulher e aceitá-la mesmo quando ela não faz questão de ser compreendida ou acolhida. Etero sabe quem é. Não se explica. Não pede empatia.

Como latino-americanos, estamos acostumados a desejar o sentimento, a expansividade, o romantismo, as palavras. Na Geórgia, não é assim que as coisas funcionam. No filme, o silêncio é linguagem, o sexo não é romântico, a contenção é uma forma de expressão. Há choque, sem dúvida, mas também a lição de que nem tudo precisa falar diretamente com a gente para merecer respeito.

Filme:
Blackbird Blackbird Blackberry

Diretor:

Elene Naveriani

Ano:
2023

Gênero:
Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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