Sam Mendes dirige “Foi Apenas um Sonho” apoiado na química áspera de Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Michael Shannon e Kathy Bates. Tudo parece no lugar. Frank e April Wheeler vivem com os dois filhos num subúrbio de Connecticut, em meados dos anos 1950, cercados por gramados bem aparados, gentilezas de vizinhança e a imagem de casamento bem-sucedido que eles próprios ajudaram a fabricar. Por trás da fachada, ela carrega a frustração de ter deixado para trás suas aspirações, enquanto ele atravessa os dias num emprego corporativo sem grandeza nem consolo.
Quando os dois se conhecem numa festa em Manhattan, o encontro nasce cercado pela ideia de que seriam diferentes, mais vivos e mais corajosos do que o resto. A rachadura já existia. O salto para a casa em Revolutionary Road, para a rotina doméstica e para o fracasso da apresentação de teatro amador de April mostra que essa crença já vinha ferida havia tempo, porque a humilhação dela no palco se prolonga na discussão que o casal trava depois. Mendes encosta a câmera nesse começo sem oferecer alívio, como se a sala de estar, o palco improvisado e o silêncio do carro na volta para casa fossem partes do mesmo aperto.
Frank entra de terno no trem, cruza Grand Central e segue para um escritório que o reduz a peça repetível, enquanto April circula pela casa com a sensação de que cada cômodo mede a renúncia que fez. O dia pesa inteiro. Esse contraste não fica apenas na divisão entre homem e mulher, mas também corrói o casamento, porque redistribui a frustração entre os dois e transforma cada gesto banal em provocação muda. Por isso a proposta de Paris surge com tanta força, não como capricho exótico, mas como tentativa desesperada de escapar do bairro, dos vizinhos e da vida organizada em torno do salário dele e da clausura dela.
A partir daí, Frank e April já não discutem apenas mudança de endereço, emprego ou dinheiro, e sim a distância entre aquilo que sonhavam ser e aquilo em que se tornaram dentro daquela casa. Eles se ferem sem pausa. Frank, preso ao trabalho corporativo e ao caso com Maureen Grube, tenta se equilibrar entre o conforto que despreza e o medo de abandoná-lo; April, confinada à rotina doméstica e à memória do palco fracassado, passa a tratar Paris como a última chance de preservar algum sentido para si. Nessas brigas, cada frase parece escolhida para atingir o ponto mais exposto do outro, corroendo não só o casamento, mas a imagem idealizada que sustentava o vínculo desde o início.
A entrada de John Givings torna tudo mais incômodo porque ele pisa na casa dos Wheelers sem nenhuma disposição para a polidez social que rege aquele subúrbio. Ele fala reto demais. Filho institucionalizado da corretora que intermediou a venda da casa, ele encara Frank e April e diz em voz alta o que os vizinhos elegantes, a mesa posta e as conversas educadas tentam esconder, desmontando a fantasia que o casal oferece aos outros e a si mesmo. Michael Shannon faz dessa presença uma força brusca, quase agressiva, e cada aparição dele pesa mais porque encontra Frank já dividido entre a segurança do emprego e o plano de Paris, enquanto April se agarra a essa fuga como quem segura o último objeto intacto dentro de um quarto em ruínas.
Winslet e DiCaprio poderiam transformar essa relação numa vitrine de prestígio e sofrimento bonito, mas preferem sujar tudo com rancor, vergonha e desejo de ferir. Nada fica de pé. Ela expõe a humilhação de April na vida doméstica, na lembrança daquela noite no teatro amador e na obstinação com o recomeço em Paris; ele compõe um homem partido entre a covardia do cotidiano, a vaidade de parecer especial e a tentação de continuar exatamente onde está, mesmo depois do caso extraconjugal e das discussões que rasgam a casa por dentro. Quando John Givings encosta essa verdade no rosto dos dois, “Foi Apenas um Sonho” encontra sua melhor medida no barulho seco das palavras atravessando a sala, no trem da manhã, na cozinha imóvel e no peso do ar entre uma porta e outra.
Filme:
Foi Apenas um Sonho
Diretor:
Sam Mendes
Ano:
2008
Gênero:
Drama/Romance
Avaliação:
8/10
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Amanda Silva
★★★★★★★★★★
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