A ideia de que a Morte possa bater à porta, pedir licença e ainda negociar prazos é perturbadora o bastante para sustentar qualquer história. Em “Encontro Marcado”, dirigido por Martin Brest, essa premissa ganha corpo quando a própria Morte assume a aparência de um jovem misterioso vivido por Brad Pitt e decide adiar o fim do magnata da mídia William Parrish, interpretado por Anthony Hopkins. O acordo é simples e absurdo ao mesmo tempo: ela quer entender como os humanos vivem antes de levá-lo, e ele aceita ser seu anfitrião para ganhar alguns dias extras.
Tudo começa com Susan Parrish, a médica residente vivida por Claire Forlani, que conhece por acaso um rapaz encantador em Nova York. A conexão é imediata, leve, cheia daquela eletricidade rara que faz dois estranhos parecerem íntimos em minutos. Só que o destino interrompe brutalmente esse início promissor. Pouco depois, William começa a perceber que algo está errado quando passa a ouvir uma presença que anuncia o inevitável: seu tempo acabou. Em vez de levá-lo imediatamente, a entidade faz uma proposta. Quer circular por sua casa, observar suas reuniões, experimentar jantares em família, entender poder, dinheiro, afeto. William aceita porque precisa organizar seus negócios e proteger o império que construiu.
A partir daí, o filme acompanha essa convivência improvável dentro da mansão e dos escritórios da empresa. Hopkins compõe um empresário orgulhoso, lúcido e cada vez mais consciente da fragilidade do próprio controle. Ele tenta manter autoridade diante dos executivos enquanto administra o visitante invisível aos olhos dos outros. Já o personagem de Pitt, que adota o nome Joe Black, observa tudo com curiosidade quase infantil. Ele faz perguntas diretas sobre trabalho, amor e desejo, como alguém que nunca experimentou nada disso. E, de fato, nunca experimentou.
O ponto mais delicado surge quando Joe se aproxima de Susan. Ela reconhece naquele homem o mesmo rosto que a encantou antes, mas sente que há algo diferente. Forlani entrega uma personagem dividida entre atração e desconfiança, tentando conciliar o plantão no hospital com um romance que não consegue explicar. O envolvimento dos dois complica ainda mais a situação de William, que precisa equilibrar o acordo com a Morte e a proteção da filha. O que era uma negociação estratégica vira um conflito íntimo.
“Encontro Marcado” mistura drama, romance e fantasia com uma seriedade quase solene. Há momentos de leve humor, principalmente quando Joe tenta entender gestos cotidianos, como escolher comida ou decifrar protocolos sociais. Essas cenas dão humanidade a uma figura que, em tese, deveria ser apenas implacável. Ao mesmo tempo, o filme investe no peso das decisões empresariais, mostrando William cercado por contratos, conselhos e disputas internas que ameaçam sua posição justamente quando ele está mais vulnerável.
Martin Brest conduz tudo com ritmo deliberadamente pausado, interessado menos em suspense e mais na convivência entre esses personagens. Anthony Hopkins sustenta a tensão com um olhar que mistura medo e cálculo. Brad Pitt aposta numa interpretação contida, quase etérea, que funciona melhor quando revela curiosidade genuína do que quando tenta parecer enigmático. Claire Forlani, por sua vez, dá ao romance a emoção necessária para que a fantasia tenha consequências reais.
“Encontro Marcado” transforma a Morte em visitante, aprendiz e, acima de tudo, catalisadora de escolhas. O que está em jogo não é apenas o fim de uma vida, mas a maneira como cada personagem decide usar o tempo que ainda tem.
Filme:
Encontro Marcado
Diretor:
Martin Brest
Ano:
1998
Gênero:
Drama/Fantasia/Mistério/Romance
Avaliação:
8/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
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