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Leitores que mentem sobre livros que nunca leram — e vivem disso

Em 19 de novembro de 2024, o Instituto Pró-Livro divulgou um resumo dos resultados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 2024”. Segundo o texto, 53% da população brasileira não leu nem parte de um livro — impresso ou digital, de qualquer gênero — nos três meses anteriores ao levantamento. O documento também aponta redução de 6,7 milhões de leitores em quatro anos. No mesmo recorte, registra queda na média de livros lidos, de 2,6 para 2,4. Para livros lidos inteiros, informa que 27% se enquadram como leitores e que a média é de 0,82 livro inteiro por entrevistado.

O resumo traz ainda dados sobre a metodologia: a amostra foi de 5.504 entrevistados em 208 municípios, e o levantamento foi realizado pelo Instituto Ipec. O Instituto Pró-Livro registra que a série histórica da pesquisa existe desde 2007. Esse conjunto de informações fixa, de modo verificável, o que a pesquisa mede quando descreve hábitos de leitura no país.

A não-leitura como objeto de análise

A circulação social de livros sem leitura integral aparece como tema em “Comment Parler des Livres que l’on n’a pas Lus?” (2007), ensaio do professor francês Pierre Bayard. O livro discute maneiras de não ler e situações em que pessoas precisam falar de obras mesmo sem leitura completa, inclusive em ambientes de ensino e na vida social. O registro é relevante por localizar a não-leitura como assunto formulado dentro do próprio campo da crítica literária.

Essa referência, porém, não autoriza atribuir condutas a indivíduos nem sustenta, por si, a ideia de que um grupo profissional mantenha renda ao declarar uma leitura que não ocorreu. O que ela evidencia é a existência de uma reflexão pública sobre o descompasso entre leitura efetiva e circulação de repertório, em contextos nos quais livros operam como referência cultural.

Centralidade literária e critérios verificáveis

No campo literário, a centralidade de um livro pode ser descrita por indicadores com rastros públicos: reedições e circulação editorial, presença em bibliografias e listas de leitura, prêmios com registro institucional, catalogação em bibliotecas e crítica publicada que cita trechos e discute escolhas formais identificáveis no texto. Esses critérios não definem valor estético. Servem, isso sim, para explicar por que certos títulos entram no debate e reaparecem em ciclos de ensino, crítica e circulação editorial.

A dimensão social desse repertório é tratada por tradições acadêmicas sobre capital cultural e distinção. O sociólogo Pierre Bourdieu aborda o tema em “A Distinção: Crítica Social do Julgamento” (tradução do francês “La Distinction: Critique Sociale du Jugement”), obra da sociologia da cultura que analisa como preferências de gosto e práticas culturais se relacionam com posições sociais. No livro, Bourdieu argumenta que parte das orientações sociais sobre gostos e cultura se vincula ao capital cultural e ao campo social, com efeitos sobre reconhecimento e prestígio. Esse enquadramento ajuda a entender por que a familiaridade declarada com obras centrais pode render reconhecimento mesmo quando a leitura não é observável externamente.

Medidas de leitura e limites do autorrelato

Pesquisas de hábito baseadas em entrevistas dependem do que o participante declara. Na metodologia de surveys, o viés de desejabilidade social é descrito como a tendência de responder de acordo com o que parece socialmente aprovado, com sobre-relato de comportamentos valorizados e sub-relato do que é menos valorizado. A leitura costuma entrar no primeiro grupo. Isso impõe limites à interpretação de autorrelatos quando não há verificação externa.

Para reduzir esse problema, parte da pesquisa acadêmica recorre a instrumentos de reconhecimento. Um estudo publicado em 2022 no periódico “Behavior Research Methods” descreve uma comparação entre autorrelato, um “Author Recognition Test” e contagem de livros em uma amostra de 306 adultos mais velhos, tratando esses indicadores como maneiras de estimar exposição à leitura sem depender apenas da declaração do respondente.

Há também trabalhos de validação do “Author Recognition Test” revisado. Um deles, descrito por Rain e Mar, apresenta um instrumento com 50 nomes de autores de ficção, 50 de não ficção e 40 “Foils”, inseridos como controle por não corresponderem a autores. O desenho registra uma preocupação metodológica em separar exposição à leitura de respostas que apenas simulam familiaridade com nomes.

Lacunas públicas e o que elas revelam

Não há confirmação pública disponível, de forma ampla e sistemática, sobre quanto críticos, professores, escritores ou influenciadores leem antes de falar de um livro específico. Também não existe um mecanismo institucional de auditoria da leitura individual. Sem entrevistas documentadas, registros pessoais publicados ou bases de dados de leitura, não é possível afirmar, de modo verificável, que um conjunto de profissionais sustente renda ou reputação com base nesse tipo de declaração.

O que as fontes públicas permitem afirmar é mais restrito: a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 2024” indica não-leitores como maioria no recorte de três meses medido em 2024; a metodologia de survey descreve limites do autorrelato e formas de viés; e há registro editorial de que a não-leitura é tema discutido no livro “Comment Parler des Livres que l’on n’a pas Lus?”. Com esses elementos, o contraste entre leitura efetiva e fluência pública pode ser tratado como um problema de verificação e de incentivos sociais, sem conclusões sobre casos individuais.



Fonte

Redação

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