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Kevin Costner tem um dos filmes mais devastadores da Netflix — e quase ninguém estava pronto para isso

Dramas de família costumam ser um tiro certo. Justamente por todas as famílias felizes se parecerem é que as histórias que desnovelam o infortúnio de pessoas que se amam, mas que padecem de um golpe com que não contavam exercem um fascínio — ainda que mórbido — junto ao público. Com “Deixe-o Partir” não é diferente. O roteiro, adaptação do diretor Thomas Bezucha para o romance homônimo do americano Larry Watson publicado em 2013 pela Milkweed Editions, encadeia uma sucessão de acontecimentos funestos, um mais rápido que o outro (muitas vezes rápido demais), em que especular-se acerca de um desfecho trágico é quase forçoso. A forma como Bezucha conduz a história, mantendo o vigor narrativo da pena de Watson, autoriza toda a sorte de devaneios, mas só quem manteve contato prévio com a obra do escritor pode saber a extensão da insânia que se abate sobre um casal já entrado em anos, movido por um desejo aparentemente racional, e mesmo esses ficam perplexos como tudo se materializa na tela.

O breu dos Blackledge

Numa cocheira escura, um homem arreia um cavalo preto e os dois saem para a arena onde se preparam para ganhar mundo. A fotografia de Guy Godfree vai dispondo de uma série de elementos para frisar a monotonia do cotidiano dos Blackledge, e se no ambiente externo tudo parece contaminado por um breu opressivo, absoluto, dentro do rancho da família os cômodos refulgem de tão brancos e limpos, como se o imóvel estivesse abandonado, salvo pela visita periódica de uma faxineira. Possivelmente Margaret sinta-se assim, pouco mais que uma faxineira, malgrado não haja evidência alguma de que vá explodir em queixas a qualquer momento — mas não existe também nada que nos faça tecer loas a sua felicidade. Com a graça e a competência de sempre, Diane Lane empresta-lhe o ar compungido que vai se metamorfoseando em outra coisa ainda desconhecida, que começa a se revelar no terceiro ato, e então segue como um rio caudaloso e agitado até a conclusão. Esse sentimento sem nome se anuncia a partir do infortúnio que a arrebata, a ela e ao marido, George, de Kevin Costner, ligado ao sujeito meio enigmático que saíra para cavalgar horas antes.

Blanche Weboy em cena

Montana decerto era muito mais agreste ao longo dos anos 1960, e a ubiquidade sufocante do cenário transforma-se num coadjuvante do qual não se prescinde facilmente. A despedida compulsória e precoce daquele cavaleiro, cuja identidade se vai descortinando aos poucos, implica mais duas perdas, igualmente brutais: Lorna, a mulher de James, o filho de Margaret e George vivido por Ryan Bruce numa participação-relâmpago, casa-se outra vez e, claro, também deixa a casa, levando consigo Jimmy, o filhinho pequeno dos dois. Em aparições bissextas ao longo de 114 minutos, a concisão de Kayli Carter presta-se a amparar a performance um tanto excessiva, artificiosa de Lane — Costner também desempenha bem esse papel, justiça se lhe faça. Sente-se que o filme engrena mesmo já depois da metade, momento em que Lesley Manville entra em cena como Blanche (o nome é perfeito) Weboy, a mãe mafiosa de Donnie, o novo marido de Lorna, personagem de Will Brittain. Não por acaso, duas reviravoltas — uma de impacto mediano; a outra, acachapante — são encabeçadas por essa mulher que nunca dependeu da boa vontade de ninguém, muito menos de estranhos. Mas, ainda assim, guardadas as devidas proporções, “Deixe-o Partir” termina bem, mesmo esquecendo um pouco a mensagem escondida no título.



Fonte

Redação

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