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Josh O’Connor está na Netflix no filme mais bonito do último ano

Max Walker-Silverman constrói “Depois do Fogo” a partir de uma perda objetiva. Dusty, caubói divorciado do sul do Colorado, vê o rancho da família ser destruído por um incêndio florestal e passa a circular entre o caminhão, sofás emprestados e, por fim, um trailer num acampamento para desalojados. Josh O’Connor segura esse homem sem buscar grande cena de colapso. O centro está no corpo travado de quem precisa resolver onde dormir antes de pensar no resto.

Ao redor dele, Ruby, a ex-esposa, Bess, a ex-sogra, e a filha Callie-Rose mantêm de pé uma ligação que o fogo não apaga, mas desorganiza. Antes de aceitar o trailer, Dusty tenta adiar o tamanho do estrago dormindo no caminhão e pulando de sofá em sofá. Isso pesa. Quando enfim entra no acampamento, ocupa o espaço como quem está de favor e mede cada gesto.

Vida provisória

A mudança não aparece como alívio. Dusty evita conversa com os vizinhos, resiste à ajuda e tenta sustentar sozinho uma rotina que o incêndio já desmontou, enquanto os jantares comunitários e a presença insistente de Mila vão cercando esse isolamento. Ninguém se basta ali. “Depois do Fogo” acerta ao filmar esse começo sem pressa, prestando atenção à resposta curta, ao corpo duro, ao constrangimento de depender dos outros.

Numa região em que a biblioteca fechada obriga moradores a buscar sinal de internet do lado de fora ou de dentro dos carros, o longa encontra uma matéria concreta para falar de perda. O recomeço aparece ligado a fila, improviso, favor pedido na hora e convivência forçada. A relação com Callie-Rose ajuda a medir esse movimento. Quando a menina passa a visitar o trailer do pai, aquele espaço apertado deixa de ser só abrigo emergencial e vira um lugar onde os dois tentam refazer alguma rotina.

Terra e distância

A pressão mais dura vem quando o banco informa que a terra devastada por um incêndio de alta severidade pode levar de oito a dez anos para voltar a produzir. A notícia desloca o peso do rancho queimado e transforma a ruína em limite material, não apenas afetivo. A conta vence primeiro. É daí que surge a possibilidade de Dusty ir para Montana trabalhar no rancho de um parente, com o risco de se afastar da filha.

O emprego temporário ligado à estrada encosta a história na parte mais seca do pós-desastre, onde perda significa prazo, dívida e solo arruinado. Walker-Silverman também sabe que o dano continua na paisagem, e por isso volta aos restos da propriedade, às árvores carbonizadas e à terra ferida que Dusty encara como quem tenta reconhecer um endereço apagado. O cavalo deixado na fazenda de um amigo reforça essa vida espalhada em pontos provisórios. Quando “Depois do Fogo” termina, o que permanece é esse homem ainda preso entre o trailer, o rancho queimado e a distância até a filha.



Fonte

Redação

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