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John Wick da Escandinávia: filme de ação frenética e brutal acaba de chegar à Netflix

John Wick da Escandinávia: filme de ação frenética e brutal acaba de chegar à Netflix

Jalmari Helander filma “Sisu” como uma perseguição em território já mastigado pela guerra. Jorma Tommila interpreta Aatami Korpi, homem calado que encontra ouro no deserto da Lapônia e tenta levar a fortuna até a cidade. No caminho, cruza com um pelotão nazista em retirada, comandado por Bruno Helldorf, oficial vivido por Aksel Hennie que decide tomar tudo. Antes de a violência começar, o cenário já dá a medida do estrago, com crateras, fumaça, postes e restos de terra arrasada ao longo da estrada.

Korpi não é apresentado como sujeito de discurso ou de passado minuciosamente explicado. Helander prefere fixá-lo pelo corpo, pelo rosto ferido, pelo cavalo, pelo cão e pela maneira como ocupa o espaço sem pedir licença. Quando os alemães percebem o peso do ouro e entendem que não estão diante de um civil qualquer, o encontro vira perseguição aberta contra alguém marcado pela fama de ex-combatente e pela insistência em continuar andando mesmo depois do que derrubaria qualquer outro. Há também mulheres mantidas sob coerção naquele destacamento, e essa presença desloca a ação do roubo para um quadro mais amplo de brutalidade ainda em marcha.

Retirada e pilhagem

A Lapônia de “Sisu” não aparece como paisagem bonita atravessada por homens armados. Surge como lugar já violado, com vilarejos queimados, corpos expostos e um vazio que engole estrada, cavalo e caminhão. Helander explora esse relevo áspero sem buscar abrigo visual, e a perseguição ganha força justamente porque quase tudo se passa em campo aberto, onde distância e risco ficam à vista. Quando Korpi retoma o caminho para a cidade com o ouro preso à sela e o pelotão volta a cercá-lo, cada reaparição dele altera o equilíbrio da caçada.

Esse movimento dá ao filme um ritmo menos elegante do que insistente. Korpi foge, volta, some, reaparece e transforma o que parecia emboscada fácil em erro de cálculo dos alemães. O interesse está menos no tamanho da operação militar do que na mudança de atitude daquele grupo em retirada, que começa tratando o homem como presa e passa a enxergá-lo como ameaça concreta. Nada ali depende de fala explicativa.

Risco no chão

Helander acerta ao pôr boa parte do perigo no terreno. As minas terrestres espalhadas pelas estradas daquela retirada alemã concentram bem o tipo de ação que “Sisu” procura, uma ação em que o corpo precisa medir o chão antes de medir o inimigo. O diretor trabalha com imagens secas de um homem atravessando deserto, estrada e campo minado sob ameaça contínua, sempre com noção nítida de espaço. O risco vem do piso, do metal, do passo em falso.

Ao redor disso, a violência cresce em crueldade e invenção, de golpes diretos a explosões maiores, mas sem perder a clareza do lugar em que cada confronto acontece. O ouro é o motor mais visível do ataque, só que o filme ganha corpo quando opõe aquele destacamento, que queima o que encontra pelo caminho, a um ex-soldado que segue adiante com cavalo, cão e uma obstinação quase muda. Tommila segura esse centro sem pose heroica, sustentando a ideia de resistência no peso do corpo e na rigidez do gesto. No fim, Helander mantém tudo preso à ferrugem, à lama, ao fogo, à estrada e ao barulho do metal batendo na sela.



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