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João Antônio, o escritor engolido pela própria solidão

João Antônio, o escritor engolido pela própria solidão

Em Assis, no interior de São Paulo, caixas, pastas e envelopes do Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa da Unesp guardam cartas, recortes, contratos, agendas e manuscritos de João Antônio. Há correspondência, anotações de trabalho, páginas datilografadas, papéis de imprensa, rastros de negociação com editoras. Ali ficam cartas, versões, contratos e anotações de trabalho. Surgem marcas de uma carreira passada entre redações, editoras, hotéis baratos, bares e uma vida urbana em mudança. A massa de papéis, cuidadosamente conservada, destoa da figura pública do autor tantas vezes reduzido ao submundo, à boemia e aos personagens das esquinas.

Origem e estreia

Nascido em 1937, em São Paulo, João Antônio Ferreira Filho cresceu em Presidente Altino, em Osasco, filho de pequenos comerciantes. Antes de ser reconhecido como escritor, trabalhou como office-boy, consultor contábil de frigorífico e bancário. Desse começo saem ambientes, falas e relações sociais que entram nos livros. Sinucas, pensões, botequins, trabalhadores precários, jogadores quebrados, prostitutas, pequenos vigaristas e homens empurrados para a beira da cidade compõem a matéria de sua ficção. Quando publicou “Malagueta, Perus e Bacanaço”, em 1963, levou esse mundo ao centro do sistema literário com uma linguagem colada à fala popular, à cadência da rua e à violência da vida urbana, sem enfeite e sem distância social.

Em 1964, o livro venceu o Jabuti na categoria de contos, crônicas e novelas, e a recepção crítica fixou a imagem de um autor que renovava a prosa curta urbana. O livro não chamava atenção só pelo repertório social. João Antônio escrevia com atenção rigorosa à oralidade e com domínio firme de construção. Seus contos trabalham montagem, deslocamento de foco, repetição, elipse e uma cadência verbal que aproxima narração e desempenho oral. O efeito de espontaneidade nascia de muito trabalho de linguagem. O leitor tinha a impressão de ouvir a rua falando, mas o texto seguia uma arquitetura rígida, frase por frase, corte por corte. Nos melhores momentos de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, a fala parece colhida no impulso, embora esteja ajustada com precisão de relojoeiro. O que soa solto foi muito mexido, rebatido e posto no lugar.

Redação, rua e forma

O jornalismo ampliou esse campo de experiência. João Antônio trabalhou em veículos como “Jornal do Brasil”, “Manchete”, “Última Hora” e, sobretudo, “Realidade”, revista decisiva para a história da reportagem brasileira nos anos 1960. A rotina de pauta, apuração, rua e fechamento aprofundou a mistura entre observação factual e elaboração literária. Em 1968, “Um Dia no Cais” saiu em “Realidade” e depois entrou em livro. Ali já se vê um autor trabalhando num terreno misto, com escuta jornalística, construção de cena, atenção à fala popular e organização narrativa própria do conto. Esse trânsito entre gêneros aparece no modo de recolher a fala, escolher o detalhe, montar a cena e sustentar o ritmo. Não se trata de um repórter que enfeita o fato, nem de um ficcionista que apenas toma emprestado o ambiente jornalístico. No texto, porto, conversa, circulação de trabalhadores e observação de gestos viram cena. O cais é trabalho e passagem. A fala sai cortada pelo barulho.

João Antônio, o escritor engolido pela própria solidão, fez da rua, da fala popular e dos esquecidos matéria de literatura

João Antônio desconfiava do polimento social da classe média e do circuito institucional das letras, embora dependesse dele para publicar, circular e ser lido. Pesquisadores que estudaram suas cartas e seu acervo indicam que o reconhecimento ainda em vida veio acompanhado de desconforto, ressentimento e crises em relação ao próprio lugar no meio cultural. O escritor ligado à margem tornava-se autor premiado, editado e estudado, sem abandonar a resistência a editoras, modismos e ao tipo de literatura que via como domesticada. Essa tensão aparecia nas cartas, nos livros e na relação com redações e editoras. Nas cartas e nos textos de intervenção, esse mal-estar volta o tempo todo. Vem na irritação com o meio literário, com a circulação restrita, com a distância entre o país que escrevia e o país que premiava. O que aparece ali é incômodo recorrente com os filtros sociais da consagração.

Nos títulos posteriores, especialmente em “Leão-de-Chácara”, “Malhação do Judas Carioca”, “Dedo-Duro”, “Ô Copacabana!” e “Abraçado ao Meu Rancor”, a rua continua no centro, mas a voz do autor ganha mais peso e mais aspereza. O Brasil urbano que aparece nesses livros já não é apenas o da circulação noturna dos pobres, dos jogadores e dos trabalhadores à deriva. É também o da expansão da classe média, da cidade transformada em vitrine e do desgaste das relações de convívio. Nesses livros, entram mais lembrança, comentário, irritação e memória. João Antônio segue interessado nos desimportantes, mas passa a escrever também sobre desencanto, perda de lugar e ruína de certas formas de vida urbana. Em vez de apenas acompanhar personagens, muitos desses textos passam a mostrar o próprio narrador batendo de frente com a paisagem social. O espaço urbano segue presente, mas já não comparece apenas como circulação de tipos e cenas. Comparece também no desgaste da rua, da vitrine, do apartamento, da lembrança e do cansaço.

O homem, o arquivo e o fim

Nos últimos anos, separação conjugal, instabilidade financeira, períodos de quase ostracismo editorial e uma relação difícil com a própria imagem pública se acumularam. No acervo hoje guardado pela Unesp, aparecem também o cuidado com os próprios vestígios, a organização de papéis, a retenção de versões, a guarda de recortes, a preservação de correspondência. Ali ficam versões, recortes, cartas e papéis guardados por anos. Ele parecia saber que a disputa não era apenas por leitores imediatos, mas também pela memória de sua obra. O medo de desaparecer tinha peso concreto na vida literária, nas relações com editoras, no modo de reunir papéis e de não deixar a própria história dispersa. Isso aparece nas versões guardadas, nas cartas conservadas, nos recortes reunidos, na papelada que ele não largou pelo caminho. Aparece também no que acontece com tantos autores, quando saem de catálogo e somem de circulação.

A boemia existiu, como existiram a noite, os bares, a convivência com tipos urbanos e a proximidade com mundos que a literatura brasileira frequentemente observava de fora. Mas o arquivo e a fortuna crítica mostram um escritor mais disciplinado, mais atento e mais consciente do próprio projeto do que a lenda costuma sugerir. João Antônio observava, anotava, recortava, guardava. Trabalhava a linguagem com insistência. Não buscava transformar a pobreza em colorido exótico nem a vida popular em alegoria sociológica. Queria registrar vozes, gestos, humilhações, pequenos códigos de honra, formas de circulação e sobrevivência que raramente apareciam com densidade literária. Sua escrita saía da escuta, da memória, da experiência e do trabalho de forma. O material da rua passava por muita composição. Nos papéis preservados, a figura do boêmio cede espaço ao profissional que volta ao texto, acumula versões, guarda recortes e acompanha a própria circulação. Esses papéis mostram versões guardadas, recortes acumulados e trabalho repetido.

Quando morreu, em 31 de outubro de 1996, no Rio de Janeiro, João Antônio morava sozinho em Copacabana. Seu corpo foi encontrado dias depois. Ficaram ali, juntos, livros, documentos, manuscritos, restos materiais de uma rotina de trabalho e isolamento. Ficaram também sinais de uma vida sustentada por escrita, leitura, recorte, anotação, retorno ao texto. Um escritor que dedicou grande parte dos livros a homens avulsos, vidas gastas e existências deixadas à margem terminou sozinho, cercado pelos próprios papéis. Ficaram os livros, as versões, os recortes e a fala de rua trabalhada página por página. Ficam ali também os papéis, as versões, os recortes, os livros no apartamento, a marca material de uma vida empurrada até o fim pela escrita.



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