Envelhecer pode ser inevitável, mas admitir que o coração mudou de rumo costuma ser bem mais difícil. Em “Alguém Tem Que Ceder”, Nancy Meyers coloca esse impasse no centro de uma comédia romântica que começa com um susto médico e termina com uma revisão completa de prioridades. Harry Sanborn (Jack Nicholson) é um executivo da indústria musical que se orgulha de namorar mulheres muito mais jovens, como Marin (Amanda Peet), e trata isso quase como parte do seu currículo. Ao aceitar passar um fim de semana na casa de praia da mãe dela, ele espera conforto e discrição, mas encontra Erica Barry (Diane Keaton), dramaturga bem-sucedida, divorciada e absolutamente pouco impressionada com seu charme ensaiado.
O constrangimento inicial já desmonta a pose de Harry, mas é um infarto inesperado que muda o jogo. De repente, o homem autossuficiente vira paciente, precisa de repouso e fica sob os cuidados de Erica, justamente a mulher que ele tentava evitar. A presença constante do jovem médico Julian Mercer (Keanu Reeves), responsável por acompanhar sua recuperação, reforça o contraste: enquanto Harry luta para manter a própria imagem de sedutor invencível, Julian representa estabilidade, gentileza e maturidade emocional, apesar da idade.
A convivência forçada na casa de praia cria situações engraçadas e desconfortáveis na mesma medida. Harry tenta recuperar o controle com piadas e galanteios, mas o corpo fragilizado e a inteligência afiada de Erica o colocam contra a parede. Diane Keaton brilha ao interpretar uma mulher que já sofreu, já amou e não tem paciência para joguinhos, mas que também se vê surpreendida por sentimentos que não estavam nos planos. Jack Nicholson, por sua vez, usa seu carisma habitual para revelar as inseguranças de um homem que percebe, talvez tarde demais, que sempre confundiu juventude com vitalidade.
Quando a história sai da casa de praia e volta para Nova York, o cenário muda, mas o conflito continua. Harry tenta retomar a rotina e fingir que nada aconteceu, enquanto Erica transforma a experiência em combustível criativo para sua escrita. O que parecia apenas um episódio constrangedor vira ponto de virada para ambos. Julian, com sua postura direta e sincera, adiciona uma camada extra de tensão, porque oferece a Erica uma alternativa concreta e saudável, sem jogos nem máscaras.
Nancy Meyers conduz tudo com leveza e elegância, equilibrando humor e emoção sem apelar para exageros. A graça surge das situações, dos diálogos francos e das diferenças geracionais, não de piadas fáceis. Ao mesmo tempo, o roteiro trata o tema da idade com honestidade rara em comédias românticas, mostrando que o medo de envelhecer pode ser tão paralisante quanto uma doença súbita.
“Alguém Tem Que Ceder” não transforma seus personagens em caricaturas. Harry é vaidoso e imaturo, mas também vulnerável. Erica é segura e racional, mas ainda capaz de se apaixonar. Julian é quase ideal demais, mas humano o suficiente para não parecer apenas um rival decorativo. O filme acompanha decisões que exigem coragem emocional, e faz isso com humor, charme e um olhar generoso sobre segundas chances. A história deixa claro que amadurecer não significa perder o desejo, e sim aprender a escolher melhor onde colocá-lo.
Filme:
Alguém Tem Que Ceder
Diretor:
Nancy Meyers
Ano:
2003
Gênero:
Comédia/Drama/Romance
Avaliação:
8/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★

