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Inspirado por “Tubarão”, de Steve Spielberg, e “Predadores Assassinos”, favorito de Tarantino, suspense acaba de chegar à Netflix

Em uma cidade costeira sem nome, às vésperas da chegada de um furacão, “Ataque Brutal”, dirigido por Tommy Wirkola, acompanha diferentes personagens tentando escapar de uma enchente que transforma ruas em armadilhas e atrai tubarões para dentro do espaço urbano. A premissa, em tese, deveria garantir tensão constante, mas acaba esbarrando em escolhas narrativas que enfraquecem o impacto.

Multiplot

O filme organiza sua ação a partir de três núcleos principais, que avançam em paralelo sem nunca se cruzarem de forma realmente significativa. De um lado, está Dale Edwards (Djimon Hounsou), pesquisador que estuda tubarões na região e tenta, com urgência crescente, convencer a sobrinha Dakota (Whitney Peak) a deixar a casa antes que a tempestade atinja seu ponto crítico. Dakota, que vive reclusa por conta de uma agorafobia pouco explorada, resiste à ideia de sair, e essa hesitação inicial, que deveria carregar peso dramático, acaba sendo tratada de forma simplificada, quase como um capricho, reduzindo a complexidade da situação.

Em outro ponto da cidade, Lisa Fields (Phoebe Dynevor), grávida e tentando deixar o local pelas estradas, se vê presa dentro do carro após o fechamento das vias. A situação, que começa como um contratempo logístico, rapidamente se agrava quando a enchente avança e um caminhão próximo libera resíduos na água, criando um ambiente propício para a chegada dos tubarões. Lisa, isolada, precisa administrar tempo, espaço e vulnerabilidade física, mas o roteiro insiste em decisões pouco convincentes, que fazem com que o perigo pareça menos inevitável e mais resultado de escolhas questionáveis.

O terceiro núcleo acompanha os irmãos adotivos Ron (Stacy Clausen), Dee (Alyla Browne) e Will Olsen (Dante Ubaldi), deixados à própria sorte por um responsável negligente, interpretado por Matt Nable. Presos dentro de casa enquanto a água sobe, eles tentam se reorganizar, subir níveis, improvisar saídas. A ideia de confinamento funciona em teoria, mas carece de desenvolvimento: o espectador mal entende quem são esses jovens, de onde vêm ou o que realmente os conecta, o que enfraquece qualquer tentativa de criar envolvimento emocional.

Pontos fracos

O problema central de “Ataque Brutal” não está na ideia, que é funcional e até clássica dentro do subgênero, mas na execução. Falta tempo para construir personagens e sobra pressa para colocá-los em perigo. O filme caminha como se estivesse sempre atrasado, saltando etapas que deveriam dar peso às decisões. Quando alguém hesita, erra ou tenta reagir, o impacto dessas ações não se sustenta, porque não houve preparo suficiente para que o público se importe.

Há momentos pontuais em que o filme quase acerta. Um ataque específico se destaca pela forma como é conduzido, e uma tentativa de reação dos irmãos Olsen traz alguma energia visual. São lampejos que sugerem um potencial que nunca se concretiza. Logo depois, a narrativa retorna a um padrão previsível, em que cada movimento parece já anunciado.

Também chama atenção o uso constante da água como cenário dominante. Personagens passam boa parte do tempo submersos até a cintura, enfrentando chuva intensa e visibilidade reduzida. Em teoria, isso deveria aumentar a sensação de vulnerabilidade. Na prática, a repetição esvazia o efeito. O que poderia ser claustrofóbico se torna apenas insistente.

O elenco, por sua vez, parece trabalhar com material limitado. Djimon Hounsou tenta sustentar alguma gravidade em seu personagem, mas não encontra apoio no roteiro. Phoebe Dynevor investe em uma tensão física coerente com a situação de Lisa, ainda que suas decisões enfraqueçam o conjunto. Whitney Peak busca dar nuances à ansiedade de Dakota, mas a personagem nunca ganha profundidade suficiente para se tornar memorável. Já os jovens intérpretes do núcleo Olsen cumprem suas funções sem erros evidentes, mas também sem espaço para deixar marca.

Há uma curiosa contradição no filme: ele se leva a sério demais para ser divertido e não é eficiente o bastante para ser realmente tenso. Fica preso em um meio-termo incômodo, onde nem o absurdo funciona como entretenimento, nem o drama se sustenta como experiência envolvente.

“Ataque Brutal” avança de situação em situação sem construir um senso real de progressão. Os personagens tentam sair, recuam, tentam de novo, sempre enfrentando obstáculos semelhantes. O cenário muda pouco em termos dramáticos, e o perigo, embora constante, nunca evolui de forma significativa. Quando a narrativa se encaminha para a conclusão, a sensação é menos de desfecho e mais de esgotamento, como se o filme simplesmente tivesse decidido parar, depois de circular repetidamente pelo mesmo ponto.



Fonte

Redação

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