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Inspirado em obra-prima de Ivan Turgenev que influenciou o fim da servidão na Rússia, curta indicado ao Oscar 2026 está na Netflix

O sistema de servidão foi abolido na Rússia em 1861, e muitos historiadores associam a mudança de mentalidade das elites em relação aos servos à coletânea publicada em 1852 por Ivan Turgenev, “Memórias de um Caçador”. Entre esses textos está “Os Cantores”, conto que recentemente inspirou o curta-metragem homônimo, dirigido por Sam A. Davis e indicado ao Oscar 2026.

A história impressiona porque nos leva de volta a um tempo em que a aristocracia objetificava os camponeses. E Turgenev não era um observador externo desse sistema, ele estava no topo da pirâmide. Filho de proprietários de terras, cresceu filho de pais descritos como rígidos e autoritários; sua mãe era conhecida pelos castigos severos impostos aos empregados. Entre as classes altas, era comum a ideia de que pobres e servos não eram humanos, mas propriedades, seres sem inteligência, profundidade emocional ou desejos próprios.

Como alguém criado nesse ambiente se transforma em uma das centelhas de uma mudança cultural que antecede uma reforma histórica é algo complexo. Mas Turgenev não apenas se diferenciou dos pais: ele influenciou leitores do seu próprio círculo social. Em sua coletânea, ao incluir “Os Cantores”, ele faz algo incomum para um aristocrata da época: observa camponeses como indivíduos ambíguos, profundos, dotados de inteligência e emoção.

O enredo se passa numa estalagem, onde dois trabalhadores disputam uma competição musical. O canto revela uma dimensão intelectual e sensível desses homens e expõe sua vulnerabilidade e grandeza, mostrando que aqueles considerados “inferiores” eram plenamente capazes de produzir arte e transcendência. Uma sensibilidade que a elite insistia em manter distante dos pobres.

Sam A. Davis transporta essa essência para os dias atuais em “Os Cantores”. Durante 18 minutos, somos levados a um bar simples onde trabalhadores se reúnem à noite e iniciam uma sessão musical improvisada. O que começa como disputa logo se transforma em conexão, vulnerabilidade e reconciliação. A fotografia, também assinada por Davis, cria uma atmosfera intimista e direta. Filmado em 35 mm, o curta ganha textura e personalidade, com um realismo que beira o documental.

Outra escolha acertada foi o elenco formado por talentos descobertos na internet: vozes encontradas no YouTube, TikTok e Instagram, pessoas comuns que publicavam vídeos cantando. São intérpretes autênticos, cuja presença traz honestidade emocional à narrativa. Davis consegue transmitir, em imagem e som, o mesmo sentimento que Turgenev passou através da literatura: a ideia de que a arte nos iguala e que a música tem o poder de nos conectar para além das divisões sociais.

Filme:
Os Cantores

Diretor:

Sam A. Davis

Ano:
2025

Gênero:
Drama/Musical

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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