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Inspirado em livro vencedor do Pulitzer, um dos filmes mais intensos da história do cinema está no Prime Video

Inspirado em livro vencedor do Pulitzer, um dos filmes mais intensos da história do cinema está no Prime Video

A adaptação de “A Estrada” parte de um princípio que protege o cinema de sua tentação ilustrativa: John Hillcoat e o roteirista Joe Penhall não traduzem Cormac McCarthy em sinônimos visuais; preferem a fidelidade à opacidade. O romance, publicado em 2006, é célebre por falar muito com muito pouco, e Hillcoat entende que o pouco é forma, não contenção decorativa. Em 2009, quando o filme chega às telas, a parábola pós-catástrofe encontra um público acostumado a explicações causais; aqui elas não existem. A combustão do mundo permanece fora de campo. No lugar do porquê, a insistência do depois: corpos, latas, lembranças que não aquecem.

A reticência programática do filme não é capricho autoral; é método. Em vez de definir origens, o roteiro organiza presenças. Um homem sem nome, sua criança, e um continente esvaziado de mediadores. A geografia importa menos que a textura: terra cinzenta, céu de chumbo, água que não carrega promessa. A direção de fotografia de Javier Aguirresarobe trabalha num registro sutil, entre a cor lavada e o metal opaco; não é um efeito de filtro, é um compromisso com a quemadura. Cada paisagem sugere uma arqueologia recente e irrecuperável, como se o passado tivesse sido varrido a um canto do quadro, de onde retorna apenas para incomodar.

Viggo Mortensen interpreta o Homem sem buscar heroísmo tardio. Há nele a magreza da privação e a tensão de quem sabe que o amor, num cenário desses, pode se confundir com a crueldade da sobrevivência. A delicadeza do desempenho está no ritmo do olhar: ele observa mais do que fala, e a fala, quando surge, serve para medir o perigo, nunca para nomeá-lo por completo. Diante da criança, esse cuidado endurece; diante do mundo, endurece de outra forma. O filme encontra nesse contraste uma ética instável, o que basta para organizá-lo como drama. A criança, interpretada por Kodi Smit‑McPhee, não é máscara de pureza; é um interlocutor real, alguém que se espanta e suspeita, que aprende o medo e o revida com bondade. A parceria dos dois dá ao percurso um pulso que não depende de acontecimentos espetaculares. Caminhar, neste caso, é a ação.

Hillcoat compreende a armadilha do espetáculo apocalíptico. Ele a contorna com escolhas práticas: locações que já trazem o gasto do tempo, ruínas que não precisam de adorno, paisagens captadas com uma certa resignação, sem a volúpia do desespero. A montagem de Jon Gregory retém o que a cena pede e devolve o excedente à sombra; não há pressa, tampouco complacência. O som, tão importante aqui, não pontua o pânico; registra ausências. A trilha de Nick Cave e Warren Ellis, econômica e ferida, é a curvatura emotiva de um filme que evita o gesto grandiloquente; ela se infiltra, não sublinha.

Os flashbacks com Charlize Theron devolvem calor ao quadro sem instaurar alívio. A esposa reaparece como memória que é também dilema: até que ponto o amor pode coexistir com o medo quando tudo em volta exige uma renúncia? Hillcoat filma essa mulher à distância, não para idealizá-la, mas para aceitar o limite do que o presente permite convocar do passado. A escolha é coerente com a gramática do filme, que opera em dois tempos: o da perda, que persiste, e o da atenção, que impede que a perda consuma tudo.

A estrutura episódica, com encontros com forasteiros, descobertas em casas abandonadas e becos de violência, obedece a um desenho de tensão que não busca moralizar. Robert Duvall surge como espectro humaníssimo do futuro possível, um corpo que carrega a fadiga de décadas e ainda o gesto de conversar. Michael K. Williams encarna a culpa como sobrevivência tática. Guy Pearce aparece no fecho como promessa sem euforia, o que é a forma honesta de oferecer o que sobra de esperança. Em cada aparição, o filme insiste na ambiguidade do encontro: pessoas, aqui, nunca são apenas ameaça ou refúgio; precisam, como os protagonistas, negociar comida, abrigo, olhar.

Há, em “A Estrada”, uma pedagogia sem mestre. O pai ensina a criança, mas o verbo “ensinar” perde a didática habitual; trata-se de um treino de percepção e de limites. A expressão “carregar o fogo” funciona menos como metáfora orientadora e mais como disciplina íntima. Não é um lema; é um modo de verificar, a cada cruzamento, se ainda se pode reconhecer alguém do outro lado. Ao recusar explicações para a catástrofe, o filme esvazia o campo do comentário e amplia o das escolhas, e chega ao centro do romance de McCarthy, que sempre confiou na gramática da ação como lugar de pensamento. O Humanismo, quando aparece, é de superfície áspera.

Não faltaram leituras que aproximam o filme do trauma histórico das primeiras décadas do século; o roteiro de Penhall sugere esse fundo, evita designá-lo. A opção tem dupla consequência: protege o filme do datismo e permite ao espectador recompor o quadro a partir de sua própria coleção de inquietações. A América filmada por Hillcoat não é cartão-postal em ruínas; é um país emocional, reconhecível menos pelas marcas do território e mais pelos gestos de seus habitantes. Quando o Homem pune o ladrão de maneira exemplar, a cena não se organiza para júbilo moral; ela arranha. E quando reconsidera, o gesto não absolve, cria uma dobra no personagem. Em ambos os casos, o filme se mantém fiel à complexidade do ato.

Se a literatura de McCarthy trabalha com a precisão depurada da palavra, o cinema de Hillcoat responde com precisão de silêncio. O espaço negativo, o que o quadro deixa fora, passa a significar tanto quanto as superfícies visíveis. Uma porta semiaberta, um porão onde não se quer entrar, um feixe de luz que não ilumina, apenas atesta a opacidade; a encenação avança por esses sinais. Em nenhuma passagem essa economia pesa mais do que nas sequências de perigo: a ameaça é quase sempre um rumor no limite do campo, e quando irrompe, o faz com a sobriedade de quem sabe que a violência, filmada com sobriedade, é mais perturbadora. Nada disso conduz a uma purificação; conduz a um convívio com o irresoluto.

O trabalho de cor e textura estabelece a mise-en-scène como regime moral. As folhas mortas, as praias pálidas, as cidades sem tráfego, tudo compõe um catálogo de ausências. Ao mesmo tempo, o filme não abdica do detalhe concreto, e talvez esteja nesse equilíbrio parte de sua força. O carrinho empurrado no asfalto, as latas contadas como quem conta tempo, a coberta dobrada num gesto automático, o mapa consultado mesmo quando se sabe que mapas já não explicam. A crônica do cotidiano, aqui, vale mais que qualquer expansão mitológica; a estrada não é alegoria geral, é caminho literal que adquire, pelo uso, densidade simbólica.

Há um risco inerente a toda adaptação de obra canônica: o de satisfazer-se com a fidelidade referencial. “A Estrada” escapa por duas chaves. A primeira é ética: o filme preserva o direito de não aquietar o espectador com mensagens claras. A segunda é estética: o filme confia na construção de um clima, e o clima é obtido por meios cinematográficos: luz, tempo, som, proximidade e recuo. É nesse ponto que a parceria com Aguirresarobe, Gregory, Cave e Ellis se torna decisiva; eles fornecem ao diretor o léxico com que traduz, sem trair, uma prosa que jamais pediu comentário, mas presença.

John Hillcoat sempre foi um cineasta de superfícies feridas. Em obras anteriores, preferiu contextos onde a lei vacila e a paisagem cobra seu tributo. Aqui, libera a paisagem de quase toda ornamentação dramática e pede aos atores que habitem um mundo sem retórica. A direção evita o gesto de assinatura, o que no fim de contas é sua assinatura: a recusa do excesso. O resultado não é minimalismo vazio; é a busca de um ponto de densidade onde cada gesto, por menor que seja, retorna ao espectador com uma espécie de eco moral.

Ao se aproximar do final, o filme não se corrige em otimismo. Oferece uma possibilidade, coloca outra família no campo, rearranja friamente a aritmética da solidão. A esperança, se existe, não é salvamento; é um convite a continuar a disciplina do fogo. O olhar do menino não se converte, de súbito, à confiança; torna-se menos só. O mundo continua gris, a água continua fria, a vida continua trabalho. E é precisamente esse compromisso com o pouco que dá ao filme “A Estrada” sua grandeza: uma obra que recusa o consolo, mas não a ternura; que recusa o comentário, mas não o pensamento; que recusa a explicação, mas não o detalhe.

Talvez seja essa a lição menos ruidosa do filme: em tempos obcecados por justificativas, “A Estrada” reafirma que a potência do cinema reside, muitas vezes, na partilha de uma experiência concreta, incapaz de se acomodar no conforto de uma tese. A estrada permanece sem garantia de chegada; ainda assim, é por ela que se caminha. E, enquanto houver uma vela acesa dentro do breu, enquanto houver a mão estendida que segura outra mão, o cinema poderá dizer sem alarde o que livros grandes também disseram: que viver é insistir no escuro com alguma luz, por mais breve, por mais teimosa.

Filme:
A Estrada

Diretor:

John Hillcoat

Ano:
2009

Gênero:
Aventura/Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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