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Indicado ao Oscar, filme de Steven Spielberg acaba de chegar à Netflix e muita gente ainda não notou

As redes sociais, os vídeos curtos, os textos objetivos e os resumos breves dominam a paisagem cultural contemporânea, e esse é um caminho sem volta. Geração após geração, o ser humano tenta domesticar seus medos, e a tecnologia pode ser uma aliada na eterna busca pela felicidade — ou para garantir-lhe algum prazer fugaz. Enquanto o tempo corre sem alarde, cada um tenta exorcizar seus fantasmas, mas a ameaça do fim nunca se esvai, contendo a verdade com a qual ninguém se acostuma. Num mundo premido pela lógica do descartável e da obsolescência sistemática, o cinema torna-se a alcáçova de uma humanidade sempre à beira do precipício, assunto de que Steven Spielberg entende como poucos. Heróis digitais e avatares refletem nossa ânsia por uma perigosa reinvenção, de identidades fluidas e organismos imunes ao sofrimento, premissas que Spielberg desenvolve com o brilho habitual em “Jogador Nº 1”, refinada distopia em que urde um manifesto entre carnavalesco e tenebroso sobre a vontade de escapar à finitude e ao esplim da matéria. Em seu 54º longa, o diretor tem iluminações schopenhauerianas acerca da vocação do homem para a infelicidade, embora oculte-as sob camadas e camadas de fantasia caótica.

Baseado no romance futurista publicado por Ernest Cline em 2011, o texto de Zak Penn lança mão dos elementos nostálgicos que o espectador reconhecerá na mesma hora para amenizar uma possível estranheza inicial. Tudo parece um videogame de meados da década de 1990, no qual os personagens movem-se em ritmo frenético, e Spielberg compõe um mosaico de cenas pródigas de um humor bastante peculiar, que exige repertório para ser devidamente absorvido. Wade Watts, o protagonista, nasceu muito tempo depois, em 2027, e aos dezoito anos, é um garoto como outro qualquer, de qualquer época. Na introdução, ele aparece deslizando pelos cilindros que separam as casas suspensas, até chegar à rua. A audiência capta essa urgência de Spielberg quanto a estabelecer uma analogia entre a dita realidade virtual e a vida como ela é, dois braços da trama que articula num único movimento. Wade assume o pseudônimo de Parzival nesse mundo paralelo de que fala a história, mantido por um certo James Donovan Halliday, também conhecido como Anorak, e seu OASIS, o complexo software pensado para controlar o homo sapiens sapiens ao passo que uma espécie híbrida não assume as rédeas da pobre civilização. Tye Sheridan e Mark Rylance levam os gozosos delírios spielbergianos com muita graça, contando com a ajuda da trilha sonora de sucessos pegajosos, com “I Hate Myself For Loving You” (1988), de Joan Jett & the Blackhearts, “Take On Me” (1985), do A-ha, e “Jump” (1984), do Van Halen. Aos 79 anos recém-completados, Steven Spielberg sempre foi e continua a ser um nerd pronto para atear fogo na cultura pop.

Filme:
Jogador Nº 1

Diretor:

Steven Spielberg 

Ano:
2018

Gênero:
Ação/Ficção Científica

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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