No que pode dar o afluxo de racismo estrutural e uma política que autoriza e estimula cidadãos a manter sob seu teto quantas armas puderem? Em barbárie e em sangue, como se assiste no ótimo “A Vizinha Perfeita”, uma história feito inúmeras outras já contadas. O que torna o documentário de Geeta Gandbhir especial, porém, é a crueza. Gandbhir lança mão de ligações para o 911, o número do serviço de emergência policial dos Estados Unidos, câmeras corporais dos agentes, vídeos de celulares e imagens de câmeras de segurança para reconstituir o assassinato de Ajike Owens (1988-2023), a AJ, aos 35 anos, por Susan Lorincz, 58, sua vizinha, que disparou com um revólver calibre .380 através da porta. Uma das faces de um ódio muito particular.
Desde os primeiros dias de fevereiro de 2022, o departamento de polícia de Ocala, cidadezinha de 63 mil habitantes no centro-norte da Flórida, começou a receber chamadas e mais chamadas de Lorincz, reclamando de crianças que brincavam próximo a sua casa. Uma viatura era deslocada até lá, policiais procuravam pela autora da queixa, davam instruções aos pais dos garotos e tudo parecia resolvido. Parecia. Embora destaque a lhaneza dos patrulheiros, a diretora não deixa de registrar a ineficácia do método, uma vez que o enrosco aumenta. Lorincz não se cansa, os pais dos meninos não tomam uma atitude e, claro, depois que a situação sai do controle, aparecem os especialistas e suas soluções. Ela manifesta sinais claros de histeria, exagerando em sua sensação de perigo iminente, o que deveria ser um motivo a mais para que fosse evitada.
Owens é mortalmente ferida ao querer tomar satisfações com Lorincz, que teria dirigido insultos raciais a Isaac, seu filho do meio. Tudo aponta para um crime de ódio, motivado pela raiva da assassina, inconformada com o fato de ter de morar num bairro de classe média baixa, partilhando seu espaço com pessoas negras. O flagrante não é levado em conta, e só após um segundo interrogatório Lorincz é detida. O nome do documentário faz referência ao autoelogio da homicida, mostrada como é quando pensa que ninguém a vê: uma típica Karen, as senhoras brancas de meia-idade que partem com tudo para cima de indivíduos cujo fenótipo ou sotaque não correspondam aos seus. Os vários registros de que Gandbhir dispõe invalidam a tese da legítima defesa, denunciando a fera que se escondia entre gente amistosa e de bem, e Lorincz foi condenada por homicídio culposo em primeiro grau e sentenciada a 25 anos em regime fechado. Num país governado por Donald Trump, a fina flor do lixo branco da América, outras Ajike Owens vieram, sob o nome de Renee Nicole Good ou Alex Jeffrey Pretti.
Filme:
A Vizinha Perfeita
Diretor:
Geeta Gandbhir
Ano:
2025
Gênero:
Documentário
Avaliação:
9/10
1
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Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★
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