Em todo o mundo, as mudanças estruturais conduzidas por mulheres soam como apenas um delírio enevoado se se tem por contraponto de que lugar da História vieram e quão longe chegaram, à custa de muito esforço e boa dose de autossacrifício. A personagem central de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” dá a impressão de estar meio desnorteada, num momento de caos de proporções inéditas e desafiadoras, cuja solução talvez nunca se lhe revele. Exausta, Linda vê sua vida ser tragada por essa nuvem de incerteza reagindo como pode — e ela não pode quase nada, por mais que não admita. Aos poucos, Mary Bronstein empurra-nos para o abismo onde Linda está, e não reclamamos. Talvez porque todos nós já tenhamos estado num lugar bem parecido.
Escombros
Pelo que se assiste na abertura, Linda é capaz de lidar com os vários contratempos da rotina de dona de casa, mãe e esposa sem negligenciar a atuação profissional. Depois de um dia de trabalho no consultório, a terapeuta volta para casa com a filha e a pizza que as duas comerão no jantar e aquela seria apenas uma noite como outra qualquer, não fosse por um episódio grotesco. Bronstein recorre a uma metáfora nada sutil para frisar a ruína emocional da personagem, e mostra o banheiro invadido por uma água misteriosa. Linda acompanha o fluxo, pisa em tapetes encharcados no corredor, atravessa todo o apartamento e chega a seu quarto, de cujo teto vai minando uma goteira. Num piscar de olhos, o forro vai abaixo, enquanto ela dá alguns telefonemas num esforço vão de descascar o abacaxi. A vida não para e os problemas se acumulam.
Teoria e prática
Linda e a filha passam a morar num hotel, uma reforma se estende sem prazo e de quando em quando a terapeuta conversa com o marido, que nunca aparece, mas que clama que ela seja mais enérgica. Linda segue trabalhando, recebendo o apoio do colega com quem divide o consultório. Depois de algum tempo, ele também se revela um sujeito intolerante, e a diretora-roteirista equipara as duas relações, explicando que Linda está mal em ambas. Rose Byrne ostenta uma performance não menos que brilhante nas cenas de Linda como uma terapeuta que não ajuda ninguém (nem a si mesma) e Conan O’Brien fica quase irreconhecível na pele de um tipo cartesiano, enfezado, muito diferente do âncora do Oscar. Subenredos pouco orgânicos como o da mãe que abandona com Linda um bebê de colo, ou a estranha doença que acomete sua própria filha robustecem a sensação de que “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” não é extraordinário. Mas Rose Byrne, sim.
Filme:
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Diretor:
Mary Bronstein
Ano:
2025
Gênero:
Comédia/Drama
Avaliação:
8/10
1
1
Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

