A inadimplência no rotativo do cartão de crédito acelerou em 2025, apesar dos recordes na geração de empregos e de ganhos na massa salarial. Dados do Banco Central (BC) apontam que, em janeiro de 2025, a inadimplência do rotativo era de 55% e, em dezembro, chegou a 64,7% – aumento de 10 p.p. e um recorde histórico na série que começou em 2011. Os juros praticados no rotativo do cartão chegaram a 438%, na média, em dezembro.
Ao mesmo tempo, o Brasil fechou 2025 com taxa de desemprego de 5,6%, a menor desde 2012. A renda média real também teve alta, de 5,7%, chegando a R$ 3.560, de acordo com dados do IBGE.
Para especialistas ouvidos pelo InfoMoney, uma conjunção de fatores pode explicar o cenário aparentemente paradoxal. Afinal, por que a população continua se endividando se, teoricamente, está com mais dinheiro no bolso?
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| Evolução dos juros do rotativo do cartão de crédito | |
| Mês/Ano | Juro (%) |
| dez.-2011 | 39 |
| dez.-2012 | 37,8 |
| dez.-2013 | 36 |
| dez.-2014 | 37,1 |
| dez.-2015 | 40,4 |
| dez.-2016 | 37,2 |
| dez.-2017 | 37,2 |
| dez.-2018 | 36,6 |
| dez.-2019 | 38 |
| dez.-2020 | 37,1 |
| dez.-2021 | 39,5 |
| dez.-2022 | 48,7 |
| dez.-2023 | 53,9 |
| dez.-2024 | 54,7 |
| dez-2025* | 64,7 |
Para Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, a resposta passa justamente pelo aumento da renda. Com a carteira assinada e a renda comprovada, as instituições financeiras elevaram limites de crédito, encorajando famílias a assumirem compromissos de longo prazo.
“Quem tinha R$ 2.000 de limite passou a ter R$ 5.000 e as pessoas acabam usando o cartão como uma extensão do salário baseadas na confiança de que vão manter o emprego, mas os juros compostos cresceram mais rápido do que os aumentos reais”, avalia.
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Além do maior acesso ao crédito, o custo de vida também aumentou. Patzlaff afirma que gastos com saúde, escola, serviços e mercado ficaram mais caros e, com isso, as pessoas tendem a se endividar para manter o padrão de vida, usando o limite do cartão de crédito como complemento de renda.
Virgínia Izabel Oliveira, professora associada da Fundação Dom Cabral (FDC), ressalta que “o acréscimo de renda não foi suficiente para equilibrar o orçamento e a fatura do cartão”, especialmente diante de um endividamento prévio que já pressionava as finanças domésticas.
Outro dado sobre o cenário é o aumento desigual na abertura de postos de trabalho e de renda. Virgínia Oliveira, da FDC, afirma que os bons indicadores do mercado de trabalho foram puxados pela formalização em setores específicos e para trabalhadores de maior renda, enquanto a base da pirâmide enfrentou uma inflação persistente em itens essenciais.
Antonio Pontes, diretor de estratégia e sócio da The Hill Capital, chama a atenção para a metodologia de cálculo sobre a população ocupada do IBGE, o que pode mascarar a segurança financeira da população.
“O IBGE considera como ‘ocupada’ qualquer pessoa que tenha trabalhado pelo menos 1 hora na semana de referência, incluindo trabalhos informais e bicos. Isso significa que muitos beneficiários de programas sociais que fazem trabalhos esporádicos são contabilizados como ‘empregados’, mesmo sem uma renda formal estável”, afirma.
Dessa forma, pessoas tecnicamente “ocupadas”, mas com renda instável e dependentes de transferências governamentais, frequentemente recorrem ao cartão de crédito como complemento de renda para despesas básicas. “Quando a fatura vence, a falta de renda formal suficiente impede o pagamento integral, levando-as diretamente ao rotativo — o que explica parte significativa do paradoxo entre baixo desemprego e alta inadimplência”, avalia.
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Para Pontes,o cenário é extremamente preocupante. Ele alerta que o rotativo do cartão de crédito é hoje a linha mais cara do mercado.
Para contextualizar a gravidade, ele explica que a média histórica de juros do rotativo do cartão é de aproximadamente 40,3%. “Estamos 24 pontos percentuais acima dessa média, indicando uma deterioração estrutural da saúde financeira das famílias que recorrem a essa modalidade de crédito”, avalia.
Comparando com outras linhas de crédito, os dados do BC apontam que, enquanto o rotativo do cartão fechou 2025 com juro médio de 438%, o crédito parcelado, segundo no ranking dos juros, ficou em 189%. O rotativo é quando o consumidor não paga a fatura total do cartão de crédito, optando pelo pagamento mínimo e deixando o saldo devedor em aberto. O parcelado é quando o consumidor fecha a fatura e parcela o saldo devedor do boleto do cartão.
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| Tipo de atraso | Descrição |
| Atraso Simples (até 30 dias) | Ocorre quando a fatura não é paga na data de vencimento, mas o cliente regulariza a situação em poucos dias. Apesar da rapidez, gera incidência imediata de multa e juros de mora. |
| Crédito Rotativo | Acontece quando o pagamento da fatura é parcial (inferior ao total). O saldo remanescente é financiado para o mês seguinte com as taxas de juros mais altas do mercado. |
| Parcelamento da Fatura | A dívida total ou parcial é dividida em parcelas fixas com juros prefixados. Embora oneroso, é considerado menos prejudicial ao orçamento do que o rotativo devido às taxas geralmente menores. |
| Inadimplência (90 dias ou mais) | Caracteriza-se pelo atraso prolongado. É o estágio em que a dívida é reportada aos órgãos de proteção ao crédito (SPC/Serasa), dificultando o acesso a novos empréstimos e financiamentos. |
Já os juros do cheque especial, terceiro do ranking, ficaram em 138,6%, e o crédito não consignado (sem desconto em folha), fechou dezembro com juro médio de 116,8%.
“Com juros de 435% em média, isso significa que uma dívida de R$1.000 gera um montante de R$ 5.530 em 1 ano”, afirma Virgínia Oliveira. “Não há nenhum investimento que remunere o dinheiro a essa taxa. Então é altamente arriscado não pagar a fatura total do cartão”, avalia.
Oliveira alerta que, quando alguém entra no rotativo do cartão, é bastante comum que a próxima fatura também não seja paga integralmente e, com isso, a dívida vai se acumulando exponencialmente, dificultando a normalização da situação.
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“Quando uma família deixa de pagar essa conta, geralmente significa que o orçamento colapsou e a maioria das pessoas que entram nessa modalidade não conseguem sair”, afirma Patzlaff.
| Ranking dos maiores juros em dezembro de 2025 | |
| Produto | Juros (%) |
| Cartão de crédito rotativo | 438 |
| Cartão de crédito parcelado | 189 |
| Cheque especial | 138,6 |
| Crédito não consignado | 116,8 |
| Aquisição de outros bens | 88,9 |
| Crédito consignado do setor privado | 56,2 |
| Composição de dívidas | 48,9 |
| Desconto de cheques | 37,6 |
| Aquisição de veículos | 26,4 |
| Crédito consignado para beneficiários do INSS | 23,9 |
| Crédito consignado para servidores públicos | 23,6 |
| Arrendamento mercantil – Outros bens | 18,5 |
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Para o ano de 2026, a previsão é de uma desaceleração no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Os dados consolidados de 2025 ainda não foram fechados, mas a prévia do PIB, medida pelo IBC-Br, aponta um crescimento de 2,4% no acumulado de 12 meses até novembro do ano passado. A estimativa do mercado traçada pelo Boletim Focus é que o PIB de 2026 feche com aumento de 1,8%.
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Para Virginia Oliveira, o desaquecimento não significa necessariamente que a inadimplência no rotativo do cartão de crédito vai crescer. Para ela, ela pode até mesmo cair se as famílias já estiverem equilibrando os seus orçamentos. Ela estima que a renda vai ficar um pouco mais alta em 2026, apesar do menor crescimento, o que pode impactar na inadimplência.
Isso porque a perspectiva é de queda da inflação. Se a inflação de 2026 foi menor que em 2025, que fechou em 4,26%, o aumento da renda pode ser real, possibilitando quitação das dívidas das famílias, segundo Oliveira. “A taxa de juros deve cair a partir do 2ª bimestre do ano e isso pode dar um alívio nas taxas praticadas pelos cartões de crédito”, avalia.
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Mas, para Patzlaff, o desaquecimento econômico somado ao estoque de dívidas contratadas com juros exorbitantes em 2025 pode levar parte da população a um cenário desafiador, já que há um “efeito bola de neve” nos juros do rotativo.
A recomendação para as famílias é a busca imediata por renegociações ou a troca de dívidas caras por modalidades mais baratas, além da priorização de uma reserva de emergência, uma vez que qualquer oscilação no nível de emprego em 2026 poderá levar os já alavancados ao colapso financeiro imediato.
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