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Ícone da prosa radical dos anos 1990, Marcelo Mirisola leva ao novo romance sua guerra contra o bom-mocismo literário

Teve o lançamento na quitinete (juro, tá documentado, a TV Cultura cobriu) quando revezaram mais de duzentos em 40 m2. As pessoas compravam os livros com o Bac na calçada do prédio e, depois, subiam para pegar as dedicatórias. Eu circulava entre a rua e a quitinete, enchendo a cara, tirando onda e me atracando com marias-rodapé, atrizes e almas penadas do Satyros, roedoras, tigresas e umbralinos afins. Subia e descia, fornicava e bebia, lançamento montanha-russa. Até que apaguei num looping de vodca, uísque & falta de vergonha na cara, e só fui acordar às três da madrugada quando flagrei Reinaldão Moraes xavecando Jeni (minha namoradinha no dia do lançamento), a qual, coincidentemente, havia perdido o cabaço comigo na noite anterior.
 
Eê sacanagem, mundo véio da porra: minha vida (ou meu colchão, dá no mesmo) era um blended de cabaços póstumos e badalhocas ressecadas dos travestis da Roosevelt; e eu lá, me deleitando na putaria, feito um Rei de baralho falsificado. Bem, naquela época eu contava trinta e poucos anos, e a tadala era produzida a partir do meu ego que se autoinflava e era alimentado diuturnamente pelo ego dos outros que me entregavam suas alminhas & respectivas pregas, além, é claro, da constatação mais do que óbvia de que meu ego e minha pica funcionavam como extensões naturais um do outro, ou seja, eu vivia na festa da autoestima — pau e ego duros e inflados full-time.
 
(…) a propósito, a falácia da autoestima não é artigo para ser distribuído a qualquer pangaré. Nem autoestima, e muito menos a transcendência, as artes e os cheesecakes que são comercializados nos xing-lings da vida a R$ 1,99. O resultado é a epidemia de chefes-de-cozinha e artistas meia-boca que somos obrigados a engolir, de modo que aparentemente a cabecinha oca do pangaré está bem, devidamente resolvida, afagada e festejada pela plateia, pelos pares e pela bosta da autoestima, mas os cheesecakes deles não se distinguem de frieiras apodrecidas; vale o mesmo para a música, a literatura e as “artes” que produzem, só fraude e carniça. Daí fica fácil chamar urubu de meu lôro, Mc baguncinha de Tom Jobim, Krenak de Bergson e por aí vai.
 
Voltando ao lançamento. Baita honra dividir a ninfeta com Moraes (…)
 
(…) À época eu atendia pelo codinome “bola da vez”. Isso foi antes de zoar com os ungidos, sagrados e intocáveis manos do hip hop; antes de ser amaldiçoado pela esquerda identitária e narcisista (que já começava a pôr as garrinhas de fora); e antes de ser definitivamente riscado do mapa e de ter sido boicotado pelos chernoboys* que, nos anos seguintes, além de tomar de assalto editoras, editais, redações etc, também se apropriaram da melanina alheia** sem que houvesse qualquer reação. Bem, ocorre que, antes de os chernoboys assumirem o controle da senzala e da máquina de fazer idiotas, eu pressentia um cheiro podre de censura e autocensura no ar. O fato é que, já naquela época, idos de 2002/2003, cansei de dizer que nunca ninguém, desde Homero a Nelson Rodrigues, que ninguém havia cogitado — e não cogitou porque trata-se de uma forçação de barra e de uma demagogia escrota e odiosa —, ninguém jamais cogitou que literatura e assistência social serviriam ao mesmo propósito.
 
Porém, no final dos anos zero-zero, a coisa mudou. O Brasil mudou. Qualquer expressão artística tinha de cumprir sua função social: virou lei, edital, política pública, verba, muita verba. Em vez de se ocupar com metafísica, parábolas, construções e desconstruções psicológicas, personagens, enredos, teses, antíteses e, principalmente, implodir e subverter tudo isso — e ainda não dar vexame na conjugação de verbos e caprichar nas regências —, agora o escritor teria uma nova função; qual seja, fazer a triagem e o encaminhamento de estropiados e ceder a vez a vulneráveis, analfabetos funcionais e fodidos de toda espécie. E que enfiasse a sintaxe, a dicção e o rabo entre as pernas; que reparasse o crime histórico de usar o talento em benefício próprio sob pena de ter seus livros, sua reputação e sua alminha jogados na fogueira dos hereges (leia-se homens brancos, heterossexuais, classe média).
 
O problema, nem seria preciso dizer, é que nunca tive vocação para assistência social. Nem eu, nem Goethe, nem Dante, nem Mario Quintana que era quase um querubim, e nem tampouco os próprios querubins cuja tarefa — até hoje — consiste em guardar os Portões do Éden — diligência, aliás, que não tem absolutamente nada a ver com assistencialismo e caridade.
 
(… ) e mais, se existisse uma função social para a literatura, essa função seria dar um grande foda-se para todos e “todes”. É o que faço desde meu primeiro livro, e foi o que pratiquei na oportunidade: dei um retumbante foda-se para o Jardim Ângela e demais periferias; fodam-se a Berrini e a Faria Lima também; a mesma coisa vale para as planícies, planaltos e altiplanos; fodam-se os manos e suas rimas toscas, a cadeia que puxaram e as respectivas biqueiras e quebradas; e fodam-se os mauricinhos e patricinhas; que se dane o espectro político de uns e de outros; fodam-se a Unicamp, a PUC e as peruas da Globo News juntas; fodam-se indistintamente as graças e as desgraças de todos eles.
 
Só que eu é quem acabei me fodendo.

(…) A propósito, na ocasião e desde sempre, cansei de proclamar em altos e retumbantes brados que literatura sempre foi caminho de abominação, subversão e desvario. Nunca serviu como cura ou resgate de porra nenhuma. Avisei que não ia ornar trocar talento por discursinho de inclusão, e que as bandeiras políticas iam acabar sendo enfiadas em nossos próprios rabos; eu cansei, mas cansei de avisar, disse que ia dar merda e foi exatamente o que aconteceu.
 
(…) Quero dizer que os anos zero-zero significaram a última golfada de ar puro e liberdade no Brasil, e no mundo, pois na virada do milênio, e até poucos anos depois, a lógica de Steve Jobs e dos nerds de Los Altos, e os manuais de boas maneiras, as patrulhas, o ódio, a revanche, e a falta de talento dos millenials***, ainda não haviam emergido das piscinas de bolinhas e dos cercadinhos kids dos shoppings e praças de alimentação — à época frequentados pelos mesmos, ainda bebês. E são esse merdas que, hoje, estão dando as cartas e censurando geral, e que aniquilaram ou zeraram incondicionalmente as artes e a literatura — essa é a parte mais abjeta: — por causa de genética, opção sexual, CEP, melanina, supostas culpinhas estruturais e quesitos afins, sem os quais é impossível ser deferido como “artista”  nas piscinas de bolinhas coloridas e cercadinhos-nazi das praças de alimentação da cultura brasileira, enfim e resumidamente: todos os que não se incluíam nos protocolos nazifascistas supracitados foram subtraídos, dançaram.
 
E agora, meus caros amigos tóxicos, agora é tarde demais, e a única coisa que me resta a dizer é: bem-feito, eu avisei.
 
* Chernoboys ou grupo chernobil-vanessa bárbara, vale a pena dar um google.
 
** De repente um chernoboy se deu conta de que era negro, um negro albino, eureca! Os demais evidentemente vestiram a camisa, ou melhor, também trocaram de cor. E, assim, do dia para a noite, uma elitizinha intelectual, usufrutuária de capitanias hereditárias da grande imprensa e a serviço de banqueiros líricos, realizaram o grande fetiche de uma geração: seja marginal/seja herói. Cinema, favela, literatura, crime organizado, Rousseau & juros estratosféricos, tudo bem batidinho no liquidificador da demagogia e do racismo estrutural, e voilà! Tamos juntos e misturados, mano! A Oscar Freire virou Jardim Ângela, e o Jardim Ângela virou Oscar Freire, a mesma coisa aconteceu com os “inocentes do Leblon e os fodidos da Maré”. A partir daí bastava se adequar ao discurso oficial de que a literatura e demais artes, irmanadas com o assistencialismo social e com as políticas de inclusão (no caso os chernoboys é que deram um jeito de mudar de cor, logo se incluíram), iam corrigir as injustiças e as opressões das quais as minorias foram vitimadas por séculos — pois agora os mauricinhos da Vila Madalena e da Oscar Freire também eram negros e explorados. O mais bizarro é que colou. E mais bizarro ainda é que os verdadeiros pobres, fodidos e explorados, em vez de esquartejarem os “albinos-fashion” em praça pública, os festejaram e pagaram a conta (como sempre). Isso tudo podia ser um breve resumo da história das elites do Brasil que agora atende por Roma Negra, aquela mesma profetizada por Darcy Ribeiro e cantada em verso e prosa por Vinicius de Moraes, só que fake. Muito esgoto e dinheiro público rolou por debaixo da ponte estaiada: uma grande suruba que contou com a fervorosa participação de uma academia que é ideológica e es-tru-tu-ral-men-te tacanha, mal-intencionada, parcial e sanguessuga e que, naturalmente, festejou e tirou casquinhas amarelas e marrons da ferida exposta. A ideia foi vendida como alta literatura para os trouxas e culpados de praxe, leia-se classe média rendida, anestesiada e adestrada para consumir Flips e merdas do tipo E, assim, os negros albinos, os sete anões também, e mais uma penca de minorias, foram redimidos pelos mauricinhos da Oscar Freire — que lucraram/continuam lucrando com o referido xaveco. O nome disso é oportunismo, filhadaputagem, Brasil, nazismo degradê, Brasil, escrotice ou qualquer expressão que se relacione a Brasil, lixo ou esgoto, qualquer coisa menos literatura.
 
*** Ocorre que “lugar de fala” de homem escroto nunca foi no asilo ou no cemitério, mas nas boas editoras do ramo. Foi assim desde que Gutenberg liberou a estrebaria até há pouquíssimo tempo, antes da nazi-babaquice millenials ser instalada no mundo. A dura realidade é uma só: ou você (incluindo os editores) se adapta aos cercadinhos-nazi dos millenials, ou é fim de linha.
 
(…) o que eu quero dizer é que a porralouquice (ou “o diálogo”) era com o passado. A força vinha dos mortos, nada demais, é/ou era a lei do trampolim: há milênios que os vivos se projetavam/projetam e se lançavam/lançam a partir da inspiração dos mortos — e vice-versa. Jorge Luis Borges, aliás, tem um ensaio maravilhoso que reproduz essa tese, onde especula que o futuro influencia o passado. Artaud fala da mesma coisa em “O suicida da sociedade”. O tema é recorrente. O problema, repito, é que o processo que alimentava e retroalimentava aquilo que chamávamos de cultura, organização social, história e evolução da espécie começou a ser demolido em Los Altos, na Califórnia, na virada dos 1970-1980 quando Steve Jobs e quatro ou cinco nerds diabólicos mudaram a lógica da coisa, ou melhor, reduziram a pó, a lógica e a coisa, não sobrou nada.
 
Não passou uma década e meia depois da virada do milênio para que o novo processo e a nova lógica se consumassem — se impusessem implacavelmente – na vida de todos os habitantes do planeta Terra; um algoritmo bem calibrado vale, vende e influencia muito mais do que todas as pseudoideias geniais dos publicitários mais sacanas que passaram sobre a face da terra, desde Goebbels até Washington Olivetto. O cadastro da íris de dona Izildinha tem mais relevância que a obra de Evanildo Bechara (talvez tenha mesmo…), pois as línguas deixaram de ser pátrias para virar emojis e, por aí vai até o ponto em que você precisa provar ao avatar de Mr. Gates que não é um robô, caso contrário, correrá um sério risco de perder o acesso a própria conta bancária. Ato contínuo, a atendente do call center será mais definitiva na história da sua vida do que todas as escolhas que você fez até chegar a ela, depois de ter falhado miseravelmente na tentativa de provar que é um ser humano. Aí a ligação cai, e você tem que começar tudo outra vez, cadastro, senha, recaptcha e a putaquepariu.
 
Bem, para resumir, no intervalo de um lanche eliminamos cinco mil anos de civilização. Entre 2005 e 2015, período que marcou a infância e a adolescência dos millenials, Paulinho Picanha sucumbiu, Daniel teve o AVC, Phil Collins e Chitãozinho & Xororó foram alçados à condição de clássicos; e muito mais: vale lembrar que, em nome do controle total e absoluto, não foi apenas o conhecimento adquirido ao longo dos séculos que dançou, também jogamos a pouca liberdade que tínhamos na lata do lixo. Viramos reféns, ninguém existe fora do sistema criado por Steve Jobs, Bill Gates e outra meia dúzia de nerds vindos dos Tártaros da Califórnia. Califórnia Nightmares. Acabaram com o futuro. No future. O passado foi reescrito e é interpretado pelos algoritmos de acordo com o humor e a ideologia desses filhosdaputa, e os mortos, nossos queridos mortos, foram assassinados, mortos e enterrados para sempre.
            
Nabokov, hoje, não teria sequer o benefício da dúvida.
 
Para os millenials, foi moleza, não tiveram que aprender nada com as gerações anteriores: muito menos com os filhotes de Chaves que os antecederam (Bukowski foi o Chaves da minha geração). Daí que fizeram os respectivos cadastrinhos (não duvido que alguns jamais tenham tocado num livro impresso) e ignoraram tudo o que veio antes deles; zeraram a conta, e, “diboas”, assimilaram os pokémons do McDonald’s e o mundinho fascista que ganharam de presente de Steve Jobs e cia ltda. Daí que não é exagero dizer que ocorreu uma mutação ou adaptação tecnológica diabólica nessa geraçãozinha de merda — os millenials nada mais são do que a versão não assumida, colorida e atualizada dos camisas pretas de Mussolini, desprovidos de qualquer traço de viço e/ou tesão.
 
Ah, eu falava da Polaquinha que conheci no calçadão da XV uma semana depois da morte de Dalton Trevisan…   



Fonte

Redação

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