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Hoje: o maior filme da história do cinema está de volta na Netflix

A narrativa parte de uma premissa simples: quando a justiça oficial não resolve conflitos, grupos articulam regras próprias e executam proteção por conta própria. O enredo acompanha uma casa influente durante uma mudança de época que ameaça rendas, alianças e o próprio comando. “O Poderoso Chefão” apresenta esse cenário sem pressa, estabelece relações de reciprocidade em festas e reuniões discretas e, logo depois, impõe um abalo que desloca o eixo do poder interno. O atentado ao patriarca interrompe a rotina, cria vácuo de liderança e força escolhas rápidas. A partir desse choque, cada decisão passa a responder a perdas concretas: preservar território, manter parceiros confiantes e evitar que rivais testem limites.

O filho mais jovem inicia afastado dos negócios e tenta manter vida comum, o que informa a ética inicial e o vocabulário distinto. O ataque ao pai muda a escala das responsabilidades. Primeiro, ele busca proteção imediata; depois, reconhece que a ausência de resposta convida a novas agressões. Define-se um plano de represália em ambiente controlado, com arma previamente deixada no local. A execução resolve a crise tática e cria ônus estratégico: ele precisa sair de cena, rompe vínculos afetivos e aceita que, dali em diante, todas as relações serão filtradas pelo cálculo de risco. A causalidade é direta. A decisão de matar para defender o clã exige afastamento; o afastamento enfraquece a interlocução com os aliados; esse enfraquecimento anima adversários, que testam novos ataques.

O exílio funciona como elipse que muda tempo e foco. A montagem alterna o cotidiano distante com tentativas da família de recompor negócios na cidade. Esse recorte não existe como adorno; ele explica atrasos na reação e mostra como o custo da guerra cresce fora do centro das decisões. Quando uma explosão corta a vida recém-iniciada no exterior, fica evidente que a disputa de sucessão não admite zonas neutras. O retorno torna-se inevitável. A volta reorganiza o tabuleiro: enquanto o patriarca recupera parte da saúde, o filho que estava longe toma consciência do enredo maior, identifica o parceiro cordial que age como articulador de interesses rivais e compreende que a guerra não é apenas entre casas antigas, mas também entre modelos de negócio.

A resposta imediata é uma trégua negociada pelo patriarca. Esse gesto reduz mortes no curto prazo e transfere o conflito para a transição de mando. A direção destaca portas entreabertas, corredores estreitos e conversas sussurradas para indicar quem participa de cada decisão. A imagem em planos médios e a permanência da câmera sobre mãos e olhares informam a passagem de bastão sem discursos solenes. Em um diálogo caseiro, o pai admite a leitura do quadro e pede paz, mas alerta sobre o verdadeiro inimigo. Esse aviso reorganiza prioridades do herdeiro que retorna: aceitar a trégua como pausa estratégica e preparar a limpeza de riscos.

A escalada final nasce de dois movimentos paralelos. De um lado, um ritual religioso em que o protagonista assume a função de padrinho, o que o coloca publicamente como responsável por uma nova vida. De outro, ordens distribuídas para eliminar chefes rivais e traidores em locais distintos. A montagem alternada liga juramento e execução, desloca o foco entre altar e ruas e define o ritmo do cerco. O efeito é informar sem didatismo que a autoridade muda de mãos naquele exato instante. O juramento de renúncia ao mal convive, no mesmo tempo dramático, com a decisão de eliminar ameaças. A construção não busca espanto gratuito; ela faz o público acompanhar, segundo a segundo, como palavras e balas se respondem.

O destino do cunhado que entregou informações ilustra a lógica do novo comando. Antes da punição, o filme mostra sinais de fraqueza, provas e confissões. Em seguida, a família simula acolhimento, obtém cooperação e executa o acerto. Nada aparece como ato isolado. O episódio integra um plano maior de consolidação da liderança, alinhando o interior da casa ao exterior. Ao final da operação, com adversários abatidos e elos frágeis cortados, a autoridade do herdeiro deixa de ser promessa e passa a ser fato.

Os diálogos são ferramentas de informação. Logo no início, “Não é nada pessoal, é apenas negócios” aparece como código que separa emoção e decisão. Quando essa frase reaparece com peso ampliado, o sentido não muda; quem muda é a escala das consequências. Essa coerência fortalece a progressão dramática: o protagonista parte de um princípio e o leva até as últimas consequências, crescendo de observador a nodo central do sistema. As atuações acompanham essa curva. O patriarca impõe respeito com voz baixa e pausas, deslocando a violência para executores; o irmão impulsivo expõe a família a riscos; o irmão mediador tenta conciliar, mas recua ao perceber o jogo maior; o herdeiro que retorna utiliza silêncio e controle do olhar para condicionar a leitura de cada promessa e de cada ameaça.

A fotografia alterna ambientes festivos e gabinetes escuros para orientar o foco do público. A variação de luz não serve como efeito decorativo. Ela esclarece onde a informação decisiva circula. A música, reconhecível, amarra blocos temporais e retorna em momentos de escolha, lembrando que decisões privadas pertencem a um ciclo maior de lealdade, dívida e punição. A sonoridade preserva pausas em que personagens calculam riscos, permitindo que o silêncio carregue parte do significado. Em paralelo, a montagem utiliza elipses para condensar deslocamentos e reforçar a ideia de que a guerra dura mais do que uma sequência de ataques e respostas; ela exige paciência, leitura de cenário e timing.

A estrutura organiza apresentação, desenvolvimento, escalada e resolução com causalidade clara. Há lacunas controladas, como o período de exílio, que comprimem tempo sem enfraquecer a compreensão do conflito. Não há atalhos fáceis. Sempre que um personagem tenta resolver por impulso, a história cobra preço alto, como se vê nas consequências de ações pouco calculadas do irmão mais velho. Ao contrário, decisões frias, tomadas com leitura adequada dos riscos, ampliam o raio de ação do novo líder.

O gesto derradeiro, quando a porta do gabinete se fecha diante da companheira, não é alegoria vaga. A encenação transforma o lar em extensão do escritório, comunica exclusão do olhar externo e oficializa a nova ordem: conversa privada para dentro, aparência respeitável para fora. A pergunta que move a narrativa — quanto vale a segurança do clã — recebe resposta inequívoca: vale ceder intimidade, cortar laços e concentrar decisões. O resultado é a inauguração de um regime de comando que combina silêncio, promessa de proteção e ameaça permanente, coerente com cada passo dado desde o primeiro ataque ao patriarca até a consolidação do poder pelo herdeiro.

Filme:
O Poderoso Chefão

Diretor:

Francis Ford Coppola

Ano:
1972

Gênero:
Crime/Drama/Épico/Tragédia

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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