Um fracasso de bilheteria, “Um Tiro na Noite“, de Brian De Palma, teve aclamação crítica na época de seu lançamento, mas nenhum apoio do público. É uma prova contundente de que prestígio artístico nem sempre se converte em retorno financeiro. Com um custo estimado em 18 milhões de dólares para a produção e outros 9 milhões investidos em marketing, o longa arrecadou pouco mais de 13 milhões, gerando prejuízo para a Filmways. Ainda assim, o tempo tratou de reposicioná-lo: hoje, o filme é lembrado entre cinéfilos e críticos como uma das obras mais radicais, pessimistas e pessoais da filmografia de De Palma.
Metalinguístico até o osso, o enredo se estrutura a partir de um crime cuidadosamente planejado que acaba sendo registrado por acaso pelo operador de som Jack Terry (John Travolta). Sua presença é tão inconveniente no momento do ocorrido que ele chega a salvar uma das vítimas: Sally (Nancy Allen). No hospital, após relatar à polícia que ouviu claramente o som de um disparo que provocou a perda de controle do carro e a queda da ponte, Jack descobre que o morto no acidente é ninguém menos que o governador da Pensilvânia, um político carismático, em plena ascensão e cotado para disputar a presidência.
Pouco depois, Jack passa a ser pressionado. Um homem ligado ao círculo político do governador o procura e deixa claro que ele deve se calar: nada de mencionar o tiro, nada de falar sobre a mulher que sobreviveu. A própria polícia tenta enquadrar o caso como um acidente banal, sugerindo que o suposto disparo não passou de ilusão sonora. O problema é que Jack não apenas ouviu o tiro, ele o gravou. E, como técnico de som, sabe reconhecer a diferença entre um estouro de pneu e um disparo de arma de fogo.
Isolado, desacreditado e cercado por versões oficiais que se impõem como verdade, Jack decide agir por conta própria. Ele cruza o áudio que captou com as fotografias feitas por um paparazzo que estava no local e monta uma reconstituição do crime. A investigação, porém, não o conduz a uma revelação libertadora, mas a um labirinto cada vez mais opaco de encobrimentos, interesses partidários e manipulação midiática.
Ao se reaproximar de Sally, Jack tenta transformá-la em aliada. Ela, no entanto, intui que o caso envolve forças muito maiores do que um simples rival político. A partir desse ponto, ambos passam a ser vigiados, e Sally se torna alvo de um assassino profissional que já vinha sendo usado como peça funcional dentro do esquema, alguém cujo padrão de crimes ajuda a sustentar versões convenientes da realidade.
Inspirado diretamente por “Blow-Up“, de Michelangelo Antonioni, e “The Conversation“, de Francis Ford Coppola, De Palma desloca o debate da imagem para o som e constrói uma das reflexões mais amargas do cinema americano sobre verdade e poder. Aqui, o problema não é descobrir o que aconteceu, Jack descobre tudo. O problema é perceber que a verdade só existe enquanto alguém decide que ela deve existir. A pergunta que fica não é quem matou o governador, mas quem tem autoridade para definir o que será lembrado, o que será abafado e quem pode ser sacrificado no processo.
Com forte influência do noir, marcada por sombras profundas, cores saturadas e uma atmosfera constante de paranoia, “Um Tiro na Noite“ mistura suspense político, melodrama e comentário metacinematográfico. O filme traz uma das atuações mais contidas e melancólicas de John Travolta e culmina em um desfecho devastador: a prova sonora absoluta da verdade sobrevive, mas apenas como um efeito especial barato em um filme de terror qualquer. Um epitáfio cruel para a ideia de justiça e para o próprio cinema como instrumento de revelação.
Filme:
Um Tiro na Noite
Diretor:
Brian de Palma
Ano:
1981
Gênero:
Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação:
9/10
1
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Fer Kalaoun
★★★★★★★★★★
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