Em “As Vantagens de Ser Invisível”, Stephen Chbosky transforma esse conflito íntimo em drama palpável ao acompanhar Charlie, vivido por Logan Lerman, um garoto que começa o ensino médio tentando passar despercebido. Ele é inteligente, sensível, escreve cartas como quem organiza a própria respiração, mas carrega uma tristeza difícil de nomear. A escola é um campo minado de olhares, piadas e hierarquias, e Charlie prefere observar de longe, como se a invisibilidade fosse uma estratégia de sobrevivência.
Logan Lerman constrói um protagonista contido, quase sempre com a sensação de que há algo prestes a transbordar. Seus gestos são mínimos, os olhos estão sempre atentos, e essa contenção dá ao personagem uma densidade rara. Charlie não é o típico deslocado carismático; ele é frágil, hesitante, por vezes desconfortável até para quem o assiste. E é justamente por isso que se torna tão real.
A mudança começa quando Patrick, interpretado por Ezra Miller, decide atravessar a distância e puxá-lo para perto. Patrick é expansivo, sarcástico, teatral. Ele ocupa o espaço que Charlie evita e parece não pedir licença para existir. Ao lado dele está Sam, vivida por Emma Watson, cuja doçura nunca é ingênua. Sam carrega suas próprias inseguranças, suas escolhas equivocadas, suas carências afetivas. Quando os dois acolhem Charlie, não oferecem salvação, mas algo mais complexo: pertencimento com risco embutido.
As festas, as conversas no quarto, as músicas compartilhadas no carro não são apenas cenários juvenis; são rituais de iniciação emocional. Charlie experimenta amizade, desejo, ciúme e lealdade como quem pisa em terreno novo. Cada experiência amplia seu mundo, mas também o expõe. O filme entende que crescer não é acumular momentos felizes, e sim aprender a sustentar o que eles despertam.
Há ainda o professor Bill, interpretado por Paul Rudd, que percebe em Charlie um talento literário e passa a desafiá-lo com leituras extras. Essa relação é fundamental porque oferece ao garoto um espelho diferente: alguém que o enxerga pela inteligência, não pela estranheza. A literatura vira ponte. Não resolve seus conflitos, mas lhe dá linguagem para enfrentá-los. É um detalhe narrativo simples, porém decisivo, porque desloca Charlie da margem absoluta para um espaço onde ele pode ser reconhecido.
Stephen Chbosky dirige com delicadeza e proximidade. A câmera frequentemente permanece no rosto dos personagens, permitindo que o espectador acompanhe pequenas reações, microexpressões, silêncios prolongados. Não há espetáculo dramático exagerado. O impacto vem da honestidade. O roteiro evita simplificar dores ou transformar traumas em lição edificante. Quando as fragilidades de Charlie surgem com mais força, o filme não as romantiza. Ele observa, respeita e deixa que as consequências emocionais ocupem o espaço necessário.
Emma Watson entrega uma Sam vulnerável e humana, distante de qualquer idealização. Ezra Miller, por sua vez, injeta energia e imprevisibilidade em Patrick, tornando-o simultaneamente alívio cômico e figura profundamente sensível. O trio funciona porque cada um revela algo que o outro tenta esconder.
“As Vantagens de Ser Invisível” é, no fundo, um filme sobre a coragem de ser visto. Não se trata de popularidade, mas de exposição emocional. Charlie precisa decidir se continuará apenas registrando a vida dos outros ou se aceitará participar dela, mesmo sabendo que isso implica dor. Ele sugere que amadurecer é reconhecer as próprias feridas sem permitir que elas definam todos os passos seguintes.
O filme deixa uma sensação de que acompanhamos não uma história grandiosa, mas um processo íntimo. E talvez seja justamente isso que o torna tão marcante: ele entende que, na juventude, os acontecimentos parecem imensos porque estão moldando quem ainda estamos tentando ser.
Filme:
As Vantagens de Ser Invisível
Diretor:
Stephen Chbosky
Ano:
2012
Gênero:
Drama
Avaliação:
9/10
1
1
Fernando Machado
★★★★★★★★★★

