Categories: Cultura

Filme na Mubi traça ligação histórica entre depressão pós-parto e caça às bruxas na Idade Média e provoca debate sobre maternidade e misoginia

“Bruxas” é o tipo de documentário que nasce de uma ferida aberta. Elizabeth Sankey, cineasta britânica, parte da própria experiência com a depressão pós-parto para construir um ensaio pessoal que mistura dor íntima e investigação histórica. Ela conecta relatos do seu sofrimento aos registros de mulheres acusadas de bruxaria durante a Inquisição. Que a caça às bruxas esteve profundamente ligada ao machismo e à misoginia mais do que à espiritualidade, isso já é amplamente sabido e debatido. O que o filme faz é avançar por outro caminho: a partir de diários, atas de julgamentos e estudos históricos, sugere que muitas das mulheres queimadas poderiam estar vivendo quadros de depressão ou psicose pós-parto, condições que, séculos atrás, eram interpretadas como possessão demoníaca.

Sankey lembra que parteiras e curandeiras foram perseguidas para abrir espaço ao nascente mercado da medicina exercida por homens. Ao mesmo tempo, havia mulheres que realmente acreditavam estar sendo usadas pelo diabo para causar o mal, o que hoje pode ser lido à luz de transtornos mentais severos. O documentário articula trechos de estudos, documentos jurídicos e testemunhos pessoais para propor que muitos desses relatos de “vozes”, “visões” e “impulsos incontroláveis” dialogam com sintomas descritos atualmente pela psiquiatria perinatal. Não é uma tese científica fechada, e Sankey não pretende que seja; é uma reflexão construída a partir de ecos históricos e experiências contemporâneas.

O filme também começa com uma crítica direta ao cinema e à cultura pop, que ajudaram a cristalizar a imagem da bruxa. A “boa” é jovem, bela, dócil, dedicada à família e à casa impecável. A “má” é velha, feia, rabugenta, sexualmente desviada, desobediente. A divisão é conveniente: qualquer mulher que escapasse do modelo patriarcal podia ser empurrada para o arquétipo da bruxa maligna. Durante a Inquisição, muitas das queimadas eram justamente as que não se casavam, viviam sozinhas, praticavam medicina popular, tinham gatos, eram ligadas à natureza ou apresentavam comportamentos considerados estranhos. Tudo que fugia à norma precisava ser eliminado. A perseguição aos gatos associados às “bruxas”, inclusive, é frequentemente apontada por historiadores como um dos fatores que agravaram a proliferação de ratos na Europa medieval, contribuindo para a disseminação da peste bubônica, um exemplo brutal de como o medo e a ignorância produzem tragédias coletivas.

E essa lógica não desapareceu. Mulheres ainda são julgadas quando não se encaixam no papel esperado. O caso da filha do prefeito de Inhumas, em Goiás, acusada de “traição” e responsabilizada socialmente pela violência brutal cometida pelo companheiro contra os próprios filhos, mostra como o julgamento moral recai quase sempre sobre elas. Ela chegou a ser hostilizada a ponto de precisar se retirar do enterro das crianças. A sexualidade masculina é naturalizada; a feminina, policiada. O controle do corpo e do comportamento das mulheres continua sendo um campo de batalha.

Mas talvez o ponto mais forte de “Bruxas” esteja nos depoimentos. Sankey expõe sua própria internação e compartilha as histórias de mulheres que conheceu durante o tratamento. Relatos de paranoia, medo constante, pensamentos intrusivos e visões são descritos com uma franqueza que incomoda justamente porque desmontam o mito da maternidade sempre plena e luminosa. A pressão por uma maternidade perfeita pesa quase exclusivamente sobre as mulheres. Aos homens é permitido não estarem prontos para a paternidade; às mulheres, não. Dúvidas, ambivalências e medo são tratados pela sociedade como falhas morais.

O filme faz uso de imagens cinematográficas sob o princípio de fair use, costurando cenas de clássicos do cinema com os depoimentos contemporâneos. Essa colagem cria um diálogo interessante entre ficção e realidade, embora o ritmo seja, em alguns momentos, arrastado e pudesse ser mais conciso. A fotografia e a iluminação dos depoimentos não são especialmente elaboradas, e há escolhas estéticas que soam amadoras demais. Ainda assim, a mensagem nos alcança. “Bruxas” presta um serviço importante ao trazer à tona discussões sobre depressão e psicose pós-parto, algo que, confesso, eu mesma desconhecia. Pode não ser uma produção impecável, mas é um filme necessário, e às vezes isso conta mais do que qualquer refinamento técnico.

Filme:
Bruxas

Diretor:

Elizabeth Sankey

Ano:
2024

Gênero:
Biografia/Documentário

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

Recent Posts

Dylan O’Brien quase morreu em um acidente durante as gravações desse filme, na Netflix

“Maze Runner: Correr ou Morrer” começa com Thomas decidido a arriscar tudo para resgatar Minho…

20 segundos ago

Disney Cruise Line ativa marca no Rio Open 2026 e mira crescimento no Brasil

Mickey e Minnie visitam o torneio de tênis, que faz parte da estratégia para ampliar…

7 minutos ago

Neymar afirma que pode se aposentar ao final de 2026: “Não sei o que vai acontecer”

Neymar, que renovou seu contrato com o Santos no mês passado, afirmou em entrevista à…

24 minutos ago

Morre o pintor suíço Peter Stämpfli, expoente europeu da Pop Art

O pintor suíço e pioneiro da Pop Art na Europa, Peter Stämpfli, mais conhecido por…

58 minutos ago

Punta del Este ganha força entre famílias brasileiras em fevereiro

Fevereiro vem se consolidando como um dos meses mais estratégicos para o turismo familiar internacional,…

1 hora ago

Governo do DF faz proposta de venda de imóveis para socorrer BRB

Usar 12 imóveis públicos para reforçar o caixa do Banco de Brasília. Essa proposta, do…

1 hora ago