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Filme mais subestimado de Steven Spielberg, com Christian Bale ainda criança, está na HBO Max

Filme mais subestimado de Steven Spielberg, com Christian Bale ainda criança, está na HBO Max

“Império do Sol” não começa com bombas, mas com porcelanas, jardins bem cuidados e uma infância blindada pela lógica colonial britânica em Xangai. Jim Graham, vivido por um Christian Bale ainda criança, circula por esse microcosmo com a naturalidade de quem nunca precisou formular perguntas incômodas. Spielberg constrói esse início como um falso equilíbrio: tudo parece sólido, mas depende de forças políticas que Jim sequer sabe nomear. Quando a invasão japonesa rompe esse arranjo, a perda dos pais não é apenas afetiva. É a quebra de um idioma social inteiro. Jim deixa de saber quem é porque o mundo que o definia deixa de existir. O filme se interessa menos pelo choque imediato e mais pelo vazio que vem depois, quando o privilégio se revela não como proteção moral, mas como anestesia.

Separado da família, Jim atravessa uma cidade em colapso até ser levado a um campo de internamento. Ali, a infância não acaba de maneira simbólica; ela é substituída por um pragmatismo seco. A relação com Basie, interpretado por John Malkovich, funciona como uma aula improvisada de cinismo: sobreviver exige cálculo, não inocência. Jim aprende rápido demais a negociar comida, afetos e lealdades. Spielberg acompanha esse aprendizado sem tentar purificá-lo. O garoto admira aviões de guerra, repete slogans, observa soldados japoneses com fascínio ambíguo. Nada disso é suavizado para conforto do espectador. A guerra não transforma Jim em alguém melhor, apenas mais atento às engrenagens que esmagam quem não aprende a se adaptar.

Tempo, deriva e desconforto

Muito se falou sobre a duração extensa do filme, especialmente no trecho central. O ritmo irregular não é acidente: ele reproduz a sensação de espera interminável do confinamento. A narrativa perde urgência porque a vida ali também perde contorno. Dias se repetem, alianças mudam, mortes deixam de causar espanto. Miranda Richardson, como a senhora Victor, encarna esse desgaste silencioso, enquanto Ben Stiller aparece em papel curto, quase irreconhecível, como mais um corpo deslocado naquele espaço suspenso. O filme recusa clímax tradicionais porque a experiência retratada não os oferece. A guerra, para Jim, não se organiza em batalhas, mas em lapsos de esperança seguidos de frustrações banais.

Memória, culpa e retorno

Quando o conflito se aproxima do fim, Jim já não é o menino do início, tampouco um adulto pleno. O reencontro com os pais evidencia essa fratura: não há reconciliação automática possível. Spielberg encerra o percurso com um desconforto raro em sua filmografia. A sobrevivência cobra um preço que não se paga com abraços. Jim volta ao ponto de partida carregando uma lucidez que ninguém ao redor parece disposto a compartilhar. “Império do Sol” é inesquecível porque não oferece alívio fácil. Ele insiste que certas experiências não edificam, apenas transformam, e que crescer, em contextos extremos, significa aprender a conviver com essa perda sem glamour.

Filme:
Império do Sol

Diretor:

Steven Spielberg

Ano:
1987

Gênero:
Drama/Épico/Guerra

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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