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Filme italiano na Netflix nos lembra do que tentamos esquecer: o bem ainda existe

Alguns filmes chegam com a delicadeza de quem bate à porta pedindo licença para existir. “Lazzaro Felice” faz exatamente isso, mas sem jamais abaixar os olhos. Há uma serenidade subversiva em sua presença, como se dissesse que a pureza não é ingenuidade, mas uma insurgência silenciosa contra a lógica brutal do mundo contemporâneo. A cada cena, parece sussurrar que há algo de profundamente errado quando a bondade se torna anomalia social.

A cineasta italiana Alice Rohrwacher desenha uma narrativa que se recusa a escolher entre o milagre e o concreto. Em “Lazzaro Felice”, os limites entre fé e estrutura econômica se desfazem como poeira. A comunidade explorada pelos De Luna vive presa ao tempo, mas esse atraso não tem a poesia da vida rural e sim o peso da fraude sistemática. Um grupo inteiro sequestrado pelos interesses de uma aristocracia decadente que insiste em sobreviver à custa de quem não tem sequer o direito de perceber que é escravizado. E, no meio desse cenário, um garoto com olhos que não discriminam ninguém: Lazzaro.

O jovem interpretado por Adriano Tardiolo carrega no corpo uma pureza tão radical que se torna indecifrável para qualquer pessoa habituada à malícia. Não há traço de burrice, muito menos de santidade performada. O que existe nele é uma ética espontânea, quase pré-linguística, que recusa a competição como critério de valor. Seus gestos, tão simples, desarmam a frieza social porque funcionam como lembrete de que a solidariedade não deveria ser exceção. Simplesmente ele age como se o bem fosse o estado natural das relações humanas. E talvez essa seja a ideia mais perturbadora do filme.

A passagem entre o campo e a cidade expõe que o progresso costuma ser apenas o mesmo desequilíbrio com outra roupa. Se antes os corpos eram explorados pelas terras, agora são devorados pelos bancos, pelas dívidas, pela invisibilidade. “Lazzaro Felice” insiste em um detalhe incômodo: a pobreza não desaparece quando mudamos de cenário, apenas assume novos disfarces. A inocência de Lazzaro, no entanto, permanece intacta, como se os adultos ao redor falassem uma língua que ele ouve, mas jamais compreende totalmente. O mundo é que se torna um paradoxo ambulante diante da sua transparência moral.

Rohrwacher brinca com o tempo como quem desafia a razão e, ainda assim, nunca perde o compromisso com o que há de mais humano na história. A ressurreição do protagonista funciona como a quebra definitiva do pacto com o realismo. Não porque seja impossível, mas porque desmonta a narrativa confortável que alimenta o cinismo coletivo. Se alguém tão bom retorna, a pergunta não é como voltou, e sim por que o expulsamos da primeira vez. O filme deixa claro que a violência não é fruto do mal absoluto; ela nasce do medo de quem já desistiu de acreditar um pouquinho na possibilidade de alguém não querer nada em troca.

A lenda do lobo, que acompanha o protagonista como sombra ancestral, relembra que o sagrado antecede instituições religiosas e sobrevive a elas. Mesmo assim, quando Lazzaro tenta se manter fiel a essa natureza íntegra, sua existência continua sendo tratada como ameaça. A brutalidade que encerra seu percurso não tem glamour trágico: é pura burocracia social esmagando aquilo que não compreende. Não existe espaço para santos que não produzam lucro.

“Lazzaro Felice” observa o mundo com a calma de quem recusa o desespero, mas não se iluda: há fúria nesse silêncio. Ao final, resta uma interrogação que não desaparece com os créditos. O que fizemos para acreditar que a bondade verdadeira é sempre burrice ou fraqueza? Talvez o maior incômodo seja perceber que, se alguém como Lazzaro reaparecesse entre nós hoje, continuaríamos incapazes de reconhecê-lo. E, pior, talvez o eliminássemos novamente, só para não admitir o quanto ele expõe a nossa miséria moral.

Filme:
Lazzaro Felice

Diretor:

Alice Rohrwacher

Ano:
2018

Gênero:
Drama/Fantasia/Mistério

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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