Perseguições, crimes e dramas familiares parecem a combinação perfeita para certos diretores. Feito por alguém que por muito tempo ganhou a vida colocando-se como anteparo dos atores nas cenas mais arriscadas, “Irmãos de Orfanato” agrada também públicos não exatamente chegados a velocidade, tiros, adrenalina, usando de alguma criatividade para reciclar lugares-comuns meio enjoativos. Dono de uma carreira prolífica como dublê, Olivier Schneider leva para seus filmes a insuportável tensão de vidas que despedaçam-se aos poucos. Enquadramentos arrojados, milimetricamente precisos, exibem anti-heróis num perene martírio de culpa e abandono, como Gabriel e Idriss, dois amigos com um passado em comum e caminhos opostos que se reveem num contexto nada venturoso.
Sem nostalgia
O cinema feito para consumo rápido, que prescindiria de grandes salas de projeção para acontecer, precisaria também de narrativas capazes de satisfazer essa demanda, sob pena de se tornar sem sentido e, por conseguinte, sem importância. Ao observar essa lógica, “Irmãos de Orfanato” vai bem. Tomando gosto pela direção, Schneider não deixa o campo semântico onde sente-se mais confortável e aperfeiçoa o cardápio, iluminando pontos obscuros da relação de Gabriel e Idriss, os irmãos de orfanato do título. Na abertura, percebem-se algumas das diferenças entre um e outro, mas resta evidente que eles são capazes de esquecer suas convicções quando preciso. Este é o caso ao saberem que Sofia, o vértice mais elevado do triângulo, está entre a vida e a morte após um acidente de carro estúpido. Ela também fora criada no abrigo, o que dá ao reencontro um sabor quase doce cuja acidez acaba por prevalecer.
Pequenos ajustes
Antes de entrar na ação, com direito a muitas sequências de fugas em bólidos potentes e lutas bem-coreografadas, Schneider mostra habilidade ao desenvolver o conflito central, reforçando a imagem de Gabriel como um policial durão e viciado em trabalho e Idriss na trincheira adversária, como faz-tudo de uma quadrilha. Em performances enxutas, às vezes caricaturais, mas eficazes, Alban Lenoir e Dali Benssalah têm bons momentos. O roteiro, de Schneider, Lenoir e Nicolas Peufaillit, convence ao unir drama familiar e thriller de vingança, nada muito diferente do que já não tenham apresentado. Ou seja, acertam em cheio.
Filme:
Irmãos de Orfanato
Diretor:
Olivier Schneider
Ano:
2025
Gênero:
Ação
Avaliação:
8/10
1
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Giancarlo Galdino
★★★★★★★★★★

