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Filme de ação que virou vício global e ficou 300 dias no Top 10 retorna à Netflix

A narrativa apresenta uma estrutura deslocada em relação à solenidade habitual da série. A retórica épica que ornamenta os discursos de Dominic Toretto cede lugar a um jogo corrosivo de provocações. Luke Hobbs, interpretado por Dwayne Johnson, e Deckard Shaw, vivido por Jason Statham, exibem antipatia que não se resolve em conciliação, mas se converte em ritmo. Os diálogos, saturados de trocadilhos e insultos, intensificam a percepção de que a virilidade ostensiva é menos uma virtude do que uma máscara prestes a rachar.

Essa troca permanente entre agressividade e comicidade delineia personagens que, ao mesmo tempo, reforçam e desconstroem o arquétipo masculino. Os corpos musculosos funcionam como monumentos da força, mas o humor revela fissuras nesse monumento. O músculo continua a existir como espetáculo, porém o riso deixa exposta a fragilidade que sustenta a exibição.

Ao longo de 23 anos, a franquia transformou-se em máquina narrativa capaz de absorver novas formas. Em “Velozes e Furiosos 9”, de 2021, Justin Lin levou o melodrama à beira da saturação, multiplicando perseguições e excessos visuais até que o próprio exagero se tornasse linguagem. Em “Hobbs & Shaw”, David Leitch escolhe outro caminho: deslocar a ação pela presença do humor. O espetáculo permanece, mas ganha uma atmosfera em que a ironia infiltra-se na mecânica da violência.

Brixton Lore, interpretado por Idris Elba, encarna o inimigo que obriga Hobbs e Shaw a se aproximarem. A figura meio homem, meio máquina, tensiona os limites da carne diante da tecnologia. A ameaça não se limita ao poder destrutivo: projeta a imagem de um futuro em que a humanidade pode ser reduzida a engrenagem. A luta contra ele simboliza o embate entre corpos que ainda reivindicam sua materialidade e a lógica artificial que ameaça substituí-los.

Vanessa Kirby, como Hattie Shaw, acrescenta outro vetor a esse embate. Sua presença não segue a mesma gramática da hipertrofia, mas insere mobilidade e precisão em um universo dominado pela ostentação física. A narrativa, ao permitir que sua personagem atue em posição central, indica a possibilidade de expansão estética para além da repetição do modelo masculino.

As referências externas enriquecem esse tecido. “BladeRunner 2049”, de Denis Villeneuve, ecoa discretamente na insistência em interrogar a identidade em meio a corpos modificados. O mesmo traço remonta ao “Blade Runner”original, de Ridley Scott, com sua melancolia futurista. Essa conexão não estabelece hierarquia, mas abre camadas de sentido que ampliam o alcance do filme dentro de sua época. Um blockbuster se fortalece quando reconhece o tempo que o molda, e “Hobbs & Shaw” inscreve-se nessa consciência.

As cenas de perseguição, os helicópteros em queda, as ruas iluminadas por neon continuam obedecendo à cartilha do gênero, mas ganham coloração distinta. A comicidade instalada entre os protagonistas faz com que cada explosão e cada impacto se tornem também comentário sobre a teatralidade da ação. O espetáculo mantém-se em alta rotação, mas o som metálico dos motores já não encobre o eco das contradições internas.

O clímax retoma o gesto clássico da união contra a ameaça maior. A aliança, entretanto, revela-se precária. O pacto não se sustenta como fraternidade definitiva, mas como acordo passageiro, tecido pela urgência da sobrevivência. Essa transitoriedade confere ao longa uma clareza rara dentro da franquia, que tantas vezes insiste em transformar rivalidade em família. “Hobbs & Shaw” prefere manter a fissura, deixar a disputa em suspenso.

O resultado é um desvio autorizado dentro da engrenagem da série. Não se pretende substituição da linha central, tampouco parêntese descartável. É um território lateral onde a ação convive com a sátira, onde a ironia se torna combustível narrativo. A longevidade da saga depende dessa capacidade de se reinventar, não pelo aumento da escala destrutiva, mas pela coragem de reconhecer o absurdo que sempre a sustentou. A intensidade nasce justamente desse gesto: admitir que a velocidade só permanece vital quando aprende a rir de si mesma.

Filme:
Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw

Diretor:

David Leitch

Ano:
2019

Gênero:
Ação/Aventura

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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