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Filme com Denzel Washington, baseado em livro de Stephen King que ficou 50 semanas entre os mais vendidos, está na Netflix

Filme com Denzel Washington, baseado em livro de Stephen King que ficou 50 semanas entre os mais vendidos, está na Netflix

“Chamas da Vingança” organiza sua história a partir de um contrato simples. Uma família contrata um ex-agente para proteger a filha em uma cidade que convive com sequestros recorrentes. O acordo nasce de necessidade, não de afinidade. O profissional chega ao posto com cansaço visível, um passado que o assombra e a intenção de cumprir horários, trajetos e relatórios. A criança, curiosa e persistente, insiste em furar a formalidade, propõe conversas, pede presença além do protocolo e, aos poucos, converte a proteção em compromisso pessoal. Essa transição, registrada em cenas de rotina escolar e treinos de natação, redefine o objetivo do protagonista. Ele continua empregado, mas agora guarda algo que ultrapassa o salário.

O primeiro grande abalo vem com o sequestro. A quebra da rotina começa com carros oficiais que não são o que parecem e termina com tiros e confusão, sustentados por uma rede que copia procedimentos de Estado para legitimar a abordagem. O protagonista tenta resistir, é baleado e falha na tarefa central. A perda não some na cena seguinte, ela reescreve a motivação do personagem. Sem confiança nas instituições, e com a autorização explícita da mãe para ir até onde for necessário, ele adota um procedimento direto: mapear a cadeia do crime por etapas e subir degrau por degrau até o comando. A causalidade passa a obedecer a uma linha objetiva. Cada fonte consultada precisa fornecer um dado verificável, e o avanço só ocorre quando uma pista encontra a seguinte.

O filme corrige a impressão de facilidades quando detalha como informações sensíveis mudam de mãos. Em vez de acesso instantâneo a dados bancários, o protagonista e um aliado buscam um intermediário que presta serviço para escritórios de advocacia, alguém que prepara pastas de seguro e folhas de pagamento. Para alcançá-lo, o protagonista não confia em um único depoimento. Ele cruza horários de visitas, confere agendas, intercepta uma mensagem e segue o entregador até um depósito. Ali, em meio a caixas, encontra cópias de contratos e um pen drive com planilhas de repasses. Não há senha quebrada em um clique, há espera, deslocamento e o risco de ser encurralado por seguranças do próprio escritório. O conteúdo dessas planilhas liga pagamentos de resgate a uma conta controlada por um operador conhecido no submundo. Essa prova material muda a escala da investigação, porque transforma desconfiança em contabilidade.

As cenas de interrogatório evitam repetição e ganham função específica na progressão do conflito. Em um encontro na oficina, o alvo tenta inverter a situação com a chegada de cúmplices e quase consegue. O protagonista escapa por um corredor estreito, acerta tiros de cobertura e volta ao ponto de partida com menos munição e mais pressa. O fracasso parcial não empurra a trama por conveniência; ele exige revisão de rota, troca de veículo e busca por um informante que valoriza o próximo passo. Em outra abordagem, em um clube noturno, a informação útil não vem de tortura imediata, mas da leitura de uma conta de consumo e do reconhecimento de uma assinatura repetida em recibos. Essa variação evita a sensação de que todos confessam por medo e reforça a ideia de que o avanço combina pressão direta e verificação documental.

Enquanto isso, o pai da menina tenta conduzir o caso por vias oficiais e se deixa aconselhar por um advogado que promete discrição e rapidez. O filme introduz dúvidas sobre a integridade desse conselheiro por detalhes concretos. Ele orienta depósitos em parcelas idênticas, com prazos que coincidem com vencimentos de empréstimos do próprio pai. Em reunião, a mãe estranha a coincidência e exige segunda opinião. O pai consulta um gerente, por telefone, e pede que confira a origem de uma cobrança. A ligação retorna com a informação de que a conta indicada é de passagem e não de família do sequestro, o que acende o alerta e abre fissuras na confiança doméstica. Essa checagem adicional retarda a virada central e adiciona tensão útil sem recorrer a atalhos. Quando a criança é dada como morta após uma entrega sabotada, o pai desaba e o protagonista endurece. A mãe, dilacerada, mantém o Norte: quer os culpados identificados e a cadeia do crime exposta.

A direção muda o foco visual quando o protagonista opera no limite. Durante perseguições, a montagem alterna close no rosto dele com planos mais abertos que deixam clara a geografia das ruas e saídas. Esse desenho espacial altera a compreensão da cena, porque mostra o motivo de cada desvio de rota e a razão tática de uma freada ou de um tiro para o chão. O som trabalha de modo funcional. Em negociações por telefone, o barulho da cidade recua e a voz do interlocutor ganha nitidez. O efeito é prático, aponta a prioridade do momento e alonga a espera com propósito, sem inflar a tensão antes de o relógio dramático existir em cena. Quando a decisão é tomada, a música cessa e deixa o impacto nascer da fala e do ato subsequente.

O enredo sobe um nível quando o protagonista conecta as planilhas do depósito ao circuito dos sequestros e encontra o nome do operador que comanda as operações por voz. Esse personagem age sem mostrar o rosto e se protege por intermediários que não se conhecem entre si. Para alcançá-lo, o protagonista precisa desmontar uma peça rara: o advogado que aconselhou o pai. Ao cercá-lo em um estacionamento, não obtém confissão automática. O homem nega, tenta ganhar tempo, cita cláusulas e ameaça com reputações. O que quebra a resistência não é uma falha isolada, é o confronto entre documento e discurso. O pen drive com os repasses traz sua assinatura digital, e a pressão decisiva ocorre quando o protagonista liga o viva-voz e faz o operador chamar o advogado pelo apelido reservado. Esse cruzamento de prova e reconhecimento vocal fecha o cerco e abre a porta para rastrear a família do operador.

A peça que faltava é a descoberta de que o pai aceitou, no início, uma encenação de sequestro, orientado pelo advogado, na crença de que o seguro resolveria as dívidas. A decisão, tomada antes da história começar para o espectador, explica a precisão do ataque e a facilidade com que os criminosos manipularam horários. O roteiro não trata essa revelação como truque. Ele planta sinais em diálogos, em recibos e em consultas bancárias feitas às pressas. Quando a verdade aflora, as consequências não são apenas morais. A mãe expulsa o advogado da casa, rompe com o marido e reforça o pedido ao guarda-costas para que continue, agora com total transparência. A cidade, representada por policiais honestos e corruptos em disputa, reage. Parte tenta capturar o protagonista por vingança, parte fornece o caminho para chegar ao operador.

Os confrontos finais seguem a regra de causa e efeito. O protagonista encontra a localização da criança através de uma ligação que exigiu três passos anteriores e uma troca com um parente do operador. Antes de chegar ao ponto, ele é interceptado em uma ponte. A cena, longe de confundir, deixa claras as posições com planos que mostram barreiras, carros de fuga e saídas laterais. O protagonista não avança no impulso. Ele recua, contorna, cria um desvio e reaparece pelo lado oposto, usando uma ambulância como cobertura. O tiroteio que se segue tem função narrativa definida. Disparos abrem caminho, mas também travam decisões. Quando um aliado é atingido, a prioridade muda e a perseguição fica para depois, o que cobra minutos preciosos e adia o encontro com a voz do mando.

A negociação derradeira revela a condição real da menina e exige uma troca de vidas. O protagonista, já machucado e ciente do custo de tudo que fez, escolhe oferecer a própria vida para resgatar a criança e a mãe. Essa decisão resolve arcos simultâneos. Repara a falha original de proteção, cumpre a promessa feita na rotina doméstica, expõe o operador ao olhar público e encerra a sequência de punições individuais. A montagem desacelera para que a escolha fique legível. Caminhadas longas, respirações pesadas e olhares sustentados constroem a passagem de responsabilidade. A mãe abraça a filha. O protagonista entra no carro dos adversários, consciente do destino. O efeito dessa escolha se desdobra na sequência seguinte, quando autoridades, munidas de documentos e depoimentos, executam prisões. O percurso particular abriu margem para uma resposta institucional, não por acaso, mas porque deixou provas circulando.

A estrutura cumpre os quatro movimentos básicos. Apresentação direta do contexto e do contrato. Desenvolvimento que combina pistas materiais, interrogatórios variados e retrocessos que custam tempo e aliados. Escalada de tensão com geografia legível e decisões que alteram o rumo pelo que revelam, não por truques externos. Resolução coerente com a promessa original, com o preço proporcional ao que foi rompido no sequestro. Onde há atalho, o filme o compensa com verificação. Onde a informação parece cair no colo, ela vem ancorada em recibos, gravações e cruzamentos. O pai não é reduzido a instrumento da virada, ele vacila, tenta verificar, esconde o pânico e, quando o plano falha, arca com a própria ruína.

Os diálogos sustentam a progressão. A mãe dá a autorização que redefine limites. O advogado revela seu elo ao repetir verbos e prazos iguais aos do manual de seguro. O operador mantém o controle por telefone até que um detalhe contábil o traia. A encenação favorece mãos, rostos e documentos. Quando a cidade aparece ampla, não é para decorar, é para explicar por onde um carro escapa e por que o outro não consegue cercar. O som estica a espera quando o relógio interno existe, e recua quando a ação precisa respirar sem avisos artificiais.

“Chamas da Vingança” fecha cobrando cada decisão com consequência proporcional. O contrato de proteção, a falha, a investigação, a revelação sobre o pai e a troca final compõem uma linha contínua, em que objetivos mudam diante de perdas reais e onde a verdade não vem em discurso vago, mas em provas que amarram pessoas, números e lugares. A promessa feita à criança, transformada em norte, guia o filme até o desfecho e deixa um rastro concreto: a cidade entende quem lucra com o medo, a família conhece o preço dos atalhos e o protagonista encerra sua trajetória na única chave que ainda lhe restava, a da reparação.

Filme:
Chamas da Vingança

Diretor:

Tony Scott

Ano:
2004

Gênero:
Ação/Crime/Drama/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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