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Fargo: clássico dos anos 90 na Netflix segue sendo o melhor retrato da mediocridade humana

A engrenagem narrativa de “Fargo: Uma Comédia de Erros” parte de um plano tão modesto quanto mal concebido. Jerry Lundegaard, interpretado por William H. Macy, é um vendedor de carros atolado em dívidas e em frustrações silenciosas. Incapaz de confrontar o sogro rico, Wade Gustafson, vivido por Harve Presnell, Jerry opta por um atalho moralmente falido: contratar dois criminosos de segunda categoria para sequestrar sua própria esposa, Jean Lundegaard, papel de Kristin Rudrüd. A expectativa é simples, um resgate pago pelo sogro e uma divisão discreta do dinheiro. O que se desenha, no entanto, é uma sequência de decisões equivocadas que transforma um golpe mal planejado em uma sucessão de mortes. O roteiro dos irmãos Coen não depende de reviravoltas engenhosas, mas da constatação de que erros pequenos, quando acumulados, produzem efeitos irreversíveis.

Criminosos sem método, violência sem propósito

Carl Showalter e Gaear Grimsrud, interpretados por Steve Buscemi e Peter Stormare, são o oposto da eficiência criminal romantizada. Carl fala demais, negocia mal e reage com impulsividade. Gaear, quase sempre em silêncio, responde ao mundo por meio da agressão direta, sem cálculo ou hesitação. A dinâmica entre os dois é instável desde o primeiro encontro com Jerry, deixando claro que não há controle possível sobre a situação. Os assassinatos que se seguem não surgem como parte de um plano, mas como reações desproporcionais a contratempos banais. Essa abordagem desmonta qualquer expectativa de glamour associada ao crime e reforça a ideia central do filme: a violência aqui não nasce de grandes ambições, mas da incompetência e da ausência de responsabilidade.

No centro oposto do caos está Marge Gunderson, vivida por Frances McDormand. Grávida, casada e chefe de polícia em uma pequena cidade, Marge conduz a investigação sem pressa e sem gestos teatrais. Seu método é baseado em observação, escuta e persistência. A relação com o marido Norm Gunderson, interpretado por John Carroll Lynch, introduz uma dimensão de estabilidade que contrasta com o egoísmo dos demais personagens. Marge não se apresenta como heroína, mas como alguém comprometida com procedimentos simples e eficazes. Essa postura é decisiva para desmontar o plano de Jerry, revelando que o filme aposta mais na lógica do cotidiano do que em qualquer forma de genialidade investigativa.

Moralidade, ironia e distância

Os irmãos Coen conduzem a narrativa com um distanciamento calculado. Não há esforço para absolver personagens nem para forçar empatia. Jerry é retratado como um homem frágil, mas nunca como vítima. Carl e Gaear não recebem justificativas psicológicas. A ironia existe, mas não funciona como alívio. Ela expõe a desproporção entre os objetivos iniciais e o desastre produzido. Quando Marge confronta Gaear no desfecho, a pergunta que ela formula não busca redenção, apenas constatação. O absurdo do que ocorreu é tratado como algo evidente demais para ser explicado.

“Fargo: Uma Comédia de Erros” encerra sua trajetória sem oferecer fechamento emocional tradicional. O destino dos personagens não carrega lições explícitas nem punições exemplares no sentido clássico. O que permanece é a impressão de um sistema moral mínimo, sustentado por poucas figuras capazes de agir com coerência. O filme não provoca riso fácil nem choque calculado. Ele observa. E ao observar, deixa claro que a verdadeira tragédia não está na violência em si, mas na facilidade com que pessoas comuns acreditam poder contornar consequências. Nesse sentido, o filme se mantém atual não por exagero, mas por precisão conceitual.

Filme:
Fargo: Uma Comédia de Erros

Diretor:

Ethan e Joel Coen

Ano:
1996

Gênero:
Crime/Drama/Suspense

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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