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Faça um favor a si mesmo e descubra essa joia no Prime Video

Em “Janet Planet”, Annie Baker estreia no longa com Julianne Nicholson, Zoe Ziegler, Elias Koteas e Sophie Okonedo num drama passado no verão de 1991, no oeste de Massachusetts. Tudo começa no escuro. Lacy, de 11 anos, liga do acampamento, pede que a mãe vá buscá-la e volta antes do previsto para a casa cercada de árvores onde Janet vive e trabalha como acupunturista. O gesto inicial já fixa o centro do filme, a dependência da filha e a força de atração que a mãe exerce sobre quem cruza seu caminho.

De volta à rotina, Lacy passa a gravitar em torno de Janet com a insistência de quem quer ocupar cada pedaço do dia da outra. Ela segue a mãe pelos cômodos, pelo quintal e pelas pausas do trabalho, atenta ao barulho da porta, ao movimento na sala, à presença de qualquer visitante que pareça ficar tempo demais. Janet atrai gente. A menina percebe isso antes de entender, e Baker filma essa vigília sem explicação didática, confiando na força de um olhar que mede distância, disputa espaço e tenta proteger um vínculo que lhe parece ameaçado a cada novo rosto.

Wayne, o namorado de Janet, torna essa ameaça concreta assim que passa a ocupar a casa. Sua enxaqueca impõe um regime de contenção que atinge tudo, o volume das vozes, o ritmo da circulação, o abre e fecha das portas, a liberdade de Lacy entre quarto, corredor e cozinha. A dor toma conta. Sem recorrer a explosões ou a conflito verbal em excesso, o filme mostra como o mal-estar de um adulto pode alterar a vida inteira de uma criança, e como a atenção de Janet, ao se voltar para Wayne, faz a filha entender que o amor materno não elimina o resto do mundo.

Baker também acerta ao tratar a paisagem como parte da vida doméstica, não como moldura bonita. Lá fora, insetos, pássaros e vento batem o tempo todo nas paredes da casa e empurram o verão para dentro, enquanto a mata do oeste de Massachusetts cerca mãe e filha com um calor que nunca parece aliviar. O silêncio pesa. Essa combinação entre natureza abundante e cômodos apertados dá ao filme um pulso particular, porque Lacy vive diante de um espaço aberto, mas passa os dias limitada pelo humor, pela dor e pelos desejos dos adultos que entram naquela casa.

Quem entra muda tudo

Quando Janet e Lacy vão a uma apresentação ligada ao grupo de Avi, o campo do filme se amplia sem perder a intimidade. Regina reaparece, passa um período morando com as duas e muda a circulação da casa de um jeito menos opressivo que Wayne, mas igualmente decisivo para a menina, que continua observando a mãe com uma mistura de fascínio, posse e desamparo. A casa muda de eixo. Avi, por sua vez, reforça a ideia de que Janet exerce sobre os outros um magnetismo difícil de definir, como se ao redor dela sempre houvesse alguém em busca de abrigo, direção ou simples encantamento.

O melhor de “Janet Planet” está no modo como Baker recusa qualquer sentimentalismo fácil ao olhar para essa relação entre mãe e filha. Lacy não surge como criança sábia nem como vítima exemplar, e Janet tampouco aparece apenas como refúgio, já que o filme a mostra cercada por Wayne, Regina, Avi, pacientes, música e tarefas que a afastam da filha mesmo quando está ali ao lado. Basta um giro. Na cena de line dance em que Janet roda de parceiro em parceiro, fica estampado o que a chamada do acampamento já anunciava, o impulso feroz de uma filha que quer a mãe inteira para si enquanto a madeira da casa, a luz baixa e o ar pesado do verão continuam parados no mesmo lugar.

Filme:
Janet Planet

Diretor:

Annie Baker

Ano:
2024

Gênero:
Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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