Deslocamento simbólico antecede exercícios no Ártico e ocorre enquanto Washington reforça interesse na ilha estratégica
A chegada dos primeiros militares europeus à Groenlândia marcou um novo capítulo na crescente disputa geopolítica em torno da maior ilha do mundo. O deslocamento, ainda de caráter limitado e simbólico, antecede exercícios militares planejados por Dinamarca e aliados e ocorre em meio ao aumento da pressão política dos Estados Unidos sobre a ilha, considerada estratégica para a defesa do Atlântico Norte e do Ártico.
No dia 10 de janeiro, um C-130J da Força Aérea Real Dinamarquesa pousou no aeroporto de Nuuk transportando um contingente inicial de militares dinamarqueses, seguido de pequenos destacamentos da França, Alemanha, Noruega, Suécia e Reino Unido. As tropas não atuarão sob comando formal da OTAN, embora todos os países envolvidos façam parte da aliança.
A composição do contingente evidencia o caráter preliminar da iniciativa. A França enviará cerca de quinze militares especializados em operações em ambiente montanhoso, enquanto a Alemanha destacou uma equipe de reconhecimento com treze integrantes. Noruega e Suécia contribuirão com dois e três oficiais, respectivamente, e o Reino Unido será representado por um único oficial integrado ao grupo. A Holanda avalia a possibilidade de participar, com decisão esperada nos próximos dias.
Apesar da escala inexpressiva em termos militares, a movimentação tem forte peso político. O objetivo declarado é preparar o terreno para exercícios de maior porte ainda em 2026 e sinalizar a disposição europeia de defender a Groenlândia.
O deslocamento, de caráter quase simbólico, contrasta com a presença de cerca de 200 militares dos Estados Unidos, que ficam permanentemente estacionados na base Pituffik, instalação-chave para o sistema de alerta antecipado de mísseis balísticos, sob um acordo firmado em 1951.
O movimento ocorre enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, volta a afirmar que a ilha é vital para a segurança nacional norte-americana, chegando a sugerir que a soberania dinamarquesa não seria suficiente para conter supostas ambições chinesas ou russas na região.
Imediatamente Copenhague e o governo autônomo da Groenlândia rejeitam qualquer discussão sobre transferência de soberania. Autoridades dinamarquesas classificam as declarações de Washington como graves e reiteram que o território não está à venda.
O tema ganhou novo fôlego após reuniões recentes na Casa Branca entre representantes dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia, que terminaram sem avanços concretos, mas com a criação de um grupo de trabalho para discutir questões relacionadas à ilha.
Embora Washington destaque o potencial de ameaças rivais no Ártico, há poucos indícios de atividade militar atual chinesa ou russa específica em torno da Groenlândia. Ainda assim, a combinação entre localização estratégica, recursos naturais e tensões políticas tem levado aliados europeus a reforçar sua postura.
Segundo especialistas, o desafio europeu agora será calibrar o aumento da presença militar sem aprofundar fissuras dentro da própria OTAN — um equilíbrio delicado em um dos tabuleiros mais sensíveis da segurança internacional. Para a Casa Branca, a movimentação de forças militares pode ser uma resposta desejada, permitindo ampliar a proteção ao território no curto prazo.

