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Este suspense de terror de Jordan Peele chegou à Netflix e deixa a imagem mais perturbadora do cinema recente

Jordan Peele dirige “Nós“ com Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss e Shahadi Wright Joseph no centro de um pesadelo que começa muito antes do primeiro grito. Em 1986, Adelaide se perde no calçadão de Santa Cruz, entra sozinha numa atração de espelhos e sai dali ferida por um susto que não passa. Anos depois, volta à mesma região com Gabe e os filhos, Zora e Jason, para passar alguns dias numa casa perto da praia. Tudo começa com um retorno mal resolvido.

A viagem parece banal no começo, entre sol, mar e conversa de férias, mas Adelaide chega a Santa Cruz em alerta e com a sensação de que algo ruim espera pela família. Quando cai a primeira noite na casa de veraneio, quatro figuras aparecem imóveis na entrada, recortadas contra a escuridão da driveway. Eles não dizem nada. Gabe tenta proteger a mulher e os filhos diante daquela formação muda, e em poucos minutos quintal, sala e corredor deixam de ser cenário de descanso para virar terreno de caça.

O passo mais cruel de “Nós” está na revelação de que os invasores são duplos exatos dos próprios Wilson, como se o risco não viesse de fora, mas de um espelho que resolveu andar sozinho. Nyong’o sustenta essa fissura com voz, postura e respiração muito distintas entre Adelaide e sua contraparte, enquanto Duke faz de Gabe um pai que tenta bancar o protetor mesmo quando o medo já tomou conta da casa. Ninguém encontra abrigo ali. O rosto repetido, o corpo repetido e o gesto repetido dão ao terror um peso íntimo, doméstico, que transforma cada porta aberta e cada corredor escuro em ameaça mais humilhante do que misteriosa.

Santa Cruz e o espelho

Peele espalha sinais desde o prólogo em Santa Cruz, quando a menina entra na casa de espelhos, e não larga mais essa memória enquanto a ameaça cresce para além da sala dos Wilson. O motivo de “Hands Across America”, visto na televisão no começo e retomado depois em outra escala, faz o horror sair da casa de férias e tocar uma ideia mais ampla de país, sem perder o chão da praia, do calçadão e da lembrança infantil. A ambição está ali. Em vez de trocar o susto físico por explicação comprida, “Nós” mantém os corpos em movimento, a família acuada e a sensação de que existe uma multidão escondida atrás da superfície limpa de um feriado ensolarado.

Essa expansão não apaga a força do que está diante dos olhos, e talvez por isso as imagens permaneçam mais vivas do que certas respostas. A família de quatro pessoas parada em silêncio diante da casa, os macacões vermelhos recortados na noite, os rostos idênticos encostando nos Wilson e a lembrança do boardwalk de Santa Cruz formam um repertório visual duro, simples e difícil de apagar. Algumas passagens pedem mais do que precisam. Ainda assim, o filme volta sempre ao concreto, ao medo de perder marido, mulher, filhos e corpo para uma cópia que conhece a mesma casa, os mesmos passos e a mesma porta da frente.

O melhor de “Nós” aparece na mistura de terror e humor nervoso, sobretudo quando Gabe fala alto e tenta parecer firme dentro da casa enquanto Adelaide já entendeu que o mal entrou junto com a própria imagem da família. Esse humor não alivia o cerco, apenas torna mais estranho o contraste entre um pai que força valentia, uma mãe em alerta máximo, dois filhos acuados e quatro figuras espelhadas ocupando jardim, corredor e sala. O desconforto cresce por contraste. Quando a sessão termina, ainda parece haver alguém quieto na entrada, de macacão vermelho, parado no escuro com a noite presa nas mãos.

Filme:
Nós

Diretor:

Jordan Peele

Ano:
2019

Gênero:
horror/Mistério/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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