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Esse suspense com Anthony Hopkins está na Netflix e muita gente ainda não descobriu

Esse suspense com Anthony Hopkins está na Netflix e muita gente ainda não descobriu

Gregory Hoblit dirige “Um Crime de Mestre” como quem arma uma mesa de xadrez e empilha nela vaidade, cálculo e sangue-frio. Em Los Angeles, Ted Crawford descobre que a mulher o trai com o detetive Rob Nunally, atira nela dentro de casa e chama a polícia sem qualquer impulso de fuga, como se bastasse empurrar o problema para a autoridade mais próxima. Do outro lado, Ryan Gosling surge como Willy Beachum, promotor em ascensão que já se imagina fora do gabinete, a caminho da Wooton Sims, enquanto Anthony Hopkins faz de Crawford um sujeito que parece ter ensaiado até a respiração. A chave está logo ali.

Jennifer não morre de imediato e entra em coma, o que altera o peso do processo, desmonta a aparência de caso simples e desloca a disputa para o terreno movediço da prova. Willy aceita a ação como despedida protocolar, quase um último carimbo antes de trocar o fórum por dinheiro, carpete e prestígio, mas Ted rejeita o figurino de réu acuado e resolve conduzir a própria defesa diante do tribunal. Nada corre em linha reta. O interesse de “Um Crime de Mestre” está menos no disparo já confessado do que no instante em que o promotor percebe, tarde demais, que entrou relaxado numa sala onde o adversário conhecia cada centímetro do chão.

Um duelo de nervos

Hopkins domina esse espaço sem precisar levantar a voz, e é aí que o personagem se torna mais incômodo. Ele ocupa a casa, o tribunal e o enquadramento com a serenidade de quem já aceitou o risco e, por isso mesmo, parece livre para brincar com ele, usando a traição da mulher, o coma de Jennifer e a ligação com Rob Nunally como peças de um arranjo íntimo e perverso. Gosling encontra seu melhor tom quando Willy deixa de posar como prodígio bem penteado e começa a reagir com o corpo inteiro ao tamanho do vexame, ao perceber que a própria carreira está presa a um processo que julgou fácil demais. O duelo é de nervos.

Hoblit filma tudo com gosto por vidro, metal, linhas retas e mansões tão lustrosas que parecem recém-polidas antes de cada cena. Há um prazer visível em organizar corredores amplos, mesas limpas, janelas enormes e superfícies que devolvem reflexos frios, como se cada ambiente dissesse que ali o controle é o bem mais valioso. Nada parece casual. Esse desenho combina com Crawford, engenheiro que trata a própria casa como mecanismo, e combina também com Willy, homem que enxerga a carreira como estrada aberta até descobrir que uma prova pode perder firmeza, uma audiência pode escapar da mão e um sorriso pode valer mais do que um argumento bem treinado.

Quando o caso escapa

O suspense cresce justamente porque a pergunta principal não é quem atirou, mas como sustentar a condenação quando o processo deixa de obedecer à expectativa inicial da acusação. “Um Crime de Mestre” entende o prazer específico do tribunal, onde cada detalhe pode ferir alguém mais adiante, cada frase tem peso de armadilha e cada omissão muda o rumo de uma sala inteira em poucos segundos. Tudo depende do ritmo. Quando a prova material já não parece suficiente, Crawford ganha ainda mais presença, e Willy, acostumado a chegar às audiências com a vitória quase embalada, precisa improvisar diante de um público, de um juiz e de si mesmo. O filme encontra pulso nesse atraso.

Também ajuda o fato de Willy Beachum não ser tratado como herói puro, pronto para vencer porque ocupa o lado “certo” do tribunal. Ele entra no caso pensando no emprego novo, no salário maior e no brilho que a mudança de escritório promete, mas vai entendendo aos poucos que um promotor pode se perder antes do veredito, no momento em que confunde rotina com superioridade e para de olhar o outro com atenção. Crawford percebe essa falha com antecedência e o empurra para um labirinto feito de adultério, tiro, coma e brechas processuais, sem precisar correr, gritar ou sujar as mãos outra vez. No fim, fica aquele frio de ar-condicionado, a luz batendo no vidro e um rosto imóvel do outro lado da sala.

Filme:
Um Crime de Mestre

Diretor:

Gregory Hoblit

Ano:
2007

Gênero:
Crime/Drama/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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