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Escrito pelo criador de Succession, este filme que chegou à Netflix é mais cruel do que parece

Dirigido por Nat Faxon e Jim Rash, com Julia Louis-Dreyfus, Will Ferrell, Miranda Otto e Zach Woods, “Downhill” começa num resort de esqui nos Alpes austríacos, onde Billie e Pete Stanton chegam com os dois filhos cercados por pistas impecáveis, salões aquecidos e o tipo de conforto que promete descanso antes mesmo do primeiro jantar. A falsa paz dura pouco. Durante um almoço no terraço, uma avalanche avança, Pete corre e Billie se volta para as crianças no reflexo do medo, num gesto rápido que muda o peso de cada conversa dali em diante.

Depois da avalanche

Ninguém se machuca fisicamente. Mas o susto não termina quando a neve baixa, porque o que Billie viu no restaurante ao ar livre segue grudado nos corredores do hotel, nas filas do teleférico e nas mesas onde a família tenta repetir a rotina das férias. Pete procura tratar o episódio como exagero ou mal-entendido, enquanto os filhos, ainda em volta das pistas e da programação do resort, assistem em silêncio ao desgaste de uma autoridade que parecia firme antes daquele almoço.

É aí que “Downhill” encontra seu melhor terreno. Em vez de empilhar incidentes, o filme insiste nesse minuto branco e no que ele revela sobre Pete, um pai que tenta seguir adiante como se bastasse falar menos, sorrir mais e pedir que todos esqueçam o que aconteceu no terraço. Billie não está discutindo apenas uma reação nervosa. Ela passa a conviver, entre refeições caras e saídas para esquiar, com a descoberta de que o homem com quem construiu a família talvez seja menor justamente na hora em que ela mais precisava dele.

Constrangimento pelos corredores

O constrangimento cresce quando Zach e Rosie entram nesse circuito e a lembrança da avalanche escapa do quarto do casal para circular entre drinques, comentários e versões contraditórias do mesmo instante. Tudo fica mais exposto. Pete insiste em suavizar a própria fuga, Billie já não consegue separar o casamento daquilo que viu no terraço, e a presença expansiva da funcionária vivida por Miranda Otto empurra o resort para uma zona desconfortável, como se cada corredor levasse a uma conversa que ninguém sabe encerrar sem piorar o clima.

A força de “Downhill” está concentrada sobretudo na precisão desse ponto de partida, porque a imagem de Pete agarrando o celular e se afastando enquanto o branco cobre o restaurante ao ar livre é simples, direta e difícil de apagar. Um gesto basta. Julia Louis-Dreyfus trabalha muito bem esse abalo, sem transformar Billie em vítima passiva nem em juíza absoluta, e faz do silêncio, das pausas e dos olhares lançados nas mesmas mesas e nas mesmas pistas uma forma de mostrar que, mesmo sob a neve, a viagem nunca mais volta ao que era.

Ao mesmo tempo, “Downhill” parece hesitar entre a secura desse conflito e um humor social mais espalhado pelo hotel, pelas interações laterais e pelo desfile de pequenas humilhações em público. Will Ferrell segura bem o atraso moral de Pete, um homem que demora a entender o tamanho do próprio reflexo, mas a encenação por vezes amacia o que havia de mais incômodo no começo, como se temesse permanecer tempo demais naquele terraço. No fim, ficam a luva úmida, o ar gelado e o branco parado do lado de fora.

Filme:
Downhill

Diretor:

Nat Faxon e Jim Rash

Ano:
2020

Gênero:
Comédia/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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