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Épico histórico ambientado na Era Viking chega à Netflix: entrega mais do que promete

A força de “O Homem do Norte” não está em reafirmar a fábula conhecida, mas em torná-la sensorial outra vez. Robert Eggers e o coautor Sjón recolhem ecos das sagas e de Saxo Grammaticus, restituem ao arquétipo uma rudeza pré-psicológica e uma delicadeza áspera, e recusam a ironia que desarma o mito. O filme sabe que destino não é argumento; é estrutura. As nornas não são nomeadas, mas a trama que elas tecem pesa sobre cada gesto. Quando o jovem Amleth cresce e volta, o tempo não segue à frente; gira, insiste, rosna.

Esse giro mítico ganha corpo na fotografia de Jarin Blaschke, que enquadra o terreno como se o solo pensasse. O céu baixo cria um teto opressivo; a terra molhada puxa as botas; as fogueiras recortam rostos que parecem entalhados a machado. Há planos sequências que não anunciam proeza, apenas exigem do espectador o mesmo fôlego dos personagens. O espaço não é cenário: é antagonista. Cada encosta, cada penhasco, cada vale de neblina impõe leis estritas que a moral humana não revoga. Quando a câmera se afasta, o quadro parece uma miniatura apocalíptica; quando se aproxima, insiste no poro, na veia, no dente.

A trilha de Robin Carolan e Sebastian Gainsborough não ilustra; impõe clima. Percussões graves, camadas prolongadas que lembram vento em caverna, vozes que vibram como lamúrias rituais; música que não quer ser melodia, quer ser tempo. Os tambores não marcam ritmo de batalha, marcam o pulsar de algo maior, um organismo antigo que precede os heróis. Por vezes o som se torna quase ruído, e é aí que melhor cumpre seu ofício: a sensação física de atravessar uma noite sem século. É um desenho acústico que morde, e que sustenta a seriedade de cada invocação.

Eggers filma ritos sem aspas. A iniciação do menino, guiada por um bobo-xamã que ri como quem conhece o mapa do abismo, não serve ao exotismo; dilata o campo de crença. O espectador não é convidado a julgar, e sim a habitar. Uma cabeça de animal não é símbolo; é porta. Uma máscara não é metáfora; é ferramenta. Essa recusa do comentário preserva a gravidade do gesto. Ao aceitar a fé alheia como mundo estável, o filme produz estranhamento verdadeiro: mostra um protagonista cuja ética não busca absolvição moderna, e ainda assim convoca compaixão.

O elenco traduz essa fé com ferocidade controlada. Alexander Skarsgård se faz corpo antes de voz: a coluna de um homem que avançou anos sobre o próprio limite e agora só conhece adiante. O tronco inclina, os ombros puxam, o andar hesita menos que os olhos. Quando fala, a fala vem do fundo do estômago; quando ama, não sorri. Ethan Hawke, como Aurvandill, cria um rei fraturado que ainda guarda ternura nos interstícios; Willem Dafoe, num registro entre o patético e o sagrado, apresenta a vibração perturbada do sacerdote do riso. Anya Taylor-Joy, Olga, tem o brilho de quem aprendeu cedo a trocar astúcia por abrigo, e devolve ao filme a dimensão da inteligência que não precisa de espada. Claes Bang, como Fjölnir, recusa a caricatura e entrega um inimigo que respira culpa e dignidade com a mesma disciplina. E há a aparição breve e incisiva de Björk, cuja presença desloca o ar da sala e lembra que o filme tem permissão para ver o invisível.

A sequência em que a rainha Gudrún, de Nicole Kidman, reorganiza o eixo moral com algumas frases é das mais inquietantes do cinema recente. Não se trata de uma “reviravolta” para impressionar o espectador; é uma poda na genealogia do heroísmo. O príncipe vinga a família, mas, de repente, a família se revela, como todas, cheia de camadas de poder, medo e desejo que não cabem na narrativa que ele repetiu para aquecer o ódio. A fala de Gudrún reescreve o vocabulário do épico, e é precisamente aí que o épico sobrevive: não por propaganda de valores imaculados, e sim pela coragem de admitir fissuras no mármore.

A violência, aqui, não é espetáculo decorativo; é linguagem. Os golpes não resolvem conflitos morais; desenham os limites do corpo que carrega esses conflitos. A cada ferimento, o filme reafirma que o mundo cobra presença com carne. Os animais, filmados com solenidade e distância, acentuam a humildade dos homens; os deuses, mantidos na penumbra, lembram que a claridade tem preço. O sangue tem textura, não efeito. A decapitação tem peso, não soltura. Quando chega o duelo derradeiro, diante de fogo que parece nascer do planeta e não de truque, entende-se que o que está em jogo não é vitória, é forma: a forma de cumprir a palavra dada a um pai, a si mesmo, a um panteão severo.

Há ecos claros da tradição trágica. Não a tragédia suavizada pelo conforto do aprendizado, mas aquela que inflige destino como estrutura insolúvel. O filme olha para Shakespeare por uma via anterior à literatura: antes de Hamlet existe Amleth; antes da dúvida moderna, existe a promessa arcaica. Eggers não contrasta as duas versões; permite que uma assombre a outra. O resultado é um drama onde a consciência se ergue, mas não governa; sabe demais e, por isso, obedece. Na balança, a liberdade pesa menos do que o juramento. Não há lição edificante; há um desenho de mundo que não aceita atalhos.

Mesmo no seu movimento de grande produção, “O Homem do Norte” conserva o tato artesanal da filmografia anterior de Eggers. Em “A Bruxa”, o mal tinha cheiro de madeira úmida; em “O Farol”, a mente se partia no sal e na luz. Aqui, a escala é mais ampla, e o rigor se mantém. Não há excesso de computação a afrouxar o contato direto com as coisas; há poeira, peles, ferramentas, imagens austeras que não precisam brilhar para ser inesquecíveis. O filme supõe que o público aguenta silêncio, velocidade desigual e um tipo de beleza que não pede perdão por ser severa. Confia, e a confiança cobra retorno: quem entra sai com algo que não é mero entretenimento.

O sentido político não vem de discurso explicitado, mas de posição estética. Em plena era de ironias obrigatórias, o diretor restaura a solenidade da crença e do pacto social que as sagas fundam. Fala-se de homens e deuses, de escravos e senhores, de invasores e invadidos, sem ceder à tentação de rótulos confortáveis. A câmera não inocenta nem condena; insiste. Essa insistência produz desconforto raro: o espectador contemporâneo percebe o abismo entre as ferramentas morais de hoje e os instrumentos éticos de um século que não se imaginava discutido. O choque não resulta em nostalgia; resulta em humildade.

Louise Ford, na montagem, sustenta o fio com cortes que não ornamentam, respiram. A narrativa avança por blocos que se abrem como portais: infância, exílio, conspiração, retorno, purificação. Cada passagem guarda um motivo visual recorrente que liga as partes sem anunciar simetria forçada. A repetição de canções, murmúrios e sinais cria uma espécie de corrente subterrânea; quem acompanha, sente. Ao final, quando o destino cumpre sua curva e o quadro se incendeia, não há vitória nem derrota, apenas coerência. A história termina como começou: com a certeza de que os acordos feitos com a noite cobram assinatura em sangue.

Talvez, entre tantas virtudes, a mais rara esteja na coragem de Eggers de não procurar atualidade. O filme não pede relevância; pede entrega. E, ao exigir que o espectador aceite o peso do passado como presente ativo, torna-se, paradoxalmente, contemporâneo. O épico renasce sem verniz publicitário, sem truque sentimental. Renasce como dança antiga, rude e bela, que nos inclui e nos interroga. Vê-se uma vida jurada e cumprida até o extremo. Vê-se um cinema que não desculpa o próprio delírio. Vê-se, enfim, aquilo que as lendas sempre prometeram: um espelho onde o rosto aparece mais verdadeiro porque está ferido.

Filme:
O Homem do Norte 

Diretor:

Robert Eggers 

Ano:
2022

Gênero:
Ação/Aventura/Drama/Thriller

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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