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Em um de seus maiores clássicos, Oliver Stone se entrega ao caos em obra-prima de guerra, na Netflix

Ir para a guerra acreditando que está cumprindo um dever quase sagrado é uma coisa; encarar o que esse cenário faz com a mente e o caráter de um jovem é outra completamente diferente. “Platoon”, dirigido por Oliver Stone, parte justamente desse choque brutal entre ideal e realidade. Chris Taylor, interpretado por Charlie Sheen, abandona a zona de conforto da classe média e se voluntaria para lutar no Vietnã porque acredita que precisa honrar a tradição militar da família. Ele quer provar algo a si mesmo, mas também quer se sentir parte de uma narrativa maior. O que encontra, porém, não tem nada de épico.

Desde os primeiros dias na selva, Chris percebe que o romantismo patriótico não sobrevive ao calor sufocante, à lama constante e à exaustão física que corrói qualquer entusiasmo. O pelotão ao qual ele é designado está longe de ser uma unidade coesa. É um grupo de homens esgotados, desconfiados e emocionalmente à beira do colapso. E no centro dessa tensão estão duas figuras que simbolizam caminhos opostos: o sargento Barnes, vivido por Tom Berenger, e o sargento Elias, interpretado por Willem Dafoe.

Barnes é a personificação da guerra sem filtros. Endurecido pela experiência, ele acredita que a sobrevivência justifica praticamente qualquer atitude. Seu olhar é frio, sua postura é intimidadora, e sua autoridade nasce do medo e da eficiência no campo de batalha. Já Elias opera em outra frequência. Também é um soldado experiente, mas tenta preservar alguma noção de limite moral, alguma linha que não deveria ser cruzada. Ele conversa, pondera, observa os homens como indivíduos. Não é fraqueza; é uma tentativa de manter a humanidade num ambiente que a destrói diariamente.

Chris se vê no meio dessa disputa silenciosa e constante. Ele não entra na guerra pensando em escolher lados dentro do próprio pelotão, mas logo entende que essa escolha é inevitável. Aproximar-se de um significa afastar-se do outro. Confiar em Barnes pode significar proteção imediata, mas também implica aceitar métodos brutais. Seguir Elias oferece algum respiro ético, porém pode colocá-lo em rota de colisão com a liderança dominante. Cada patrulha, cada incursão na mata, cada decisão tomada sob fogo reforça essa divisão.

Oliver Stone, que também foi soldado no Vietnã, filma tudo com uma crueza quase documental. A câmera não procura glamour; ela gruda nos rostos suados, nas mãos trêmulas, nos olhares que oscilam entre medo e exaustão. O espectador sente o peso da mochila, o barulho constante dos insetos, a tensão que antecede uma emboscada. Não há trilha triunfal que suavize a experiência. O que existe é um desgaste contínuo, físico e psicológico, que vai corroendo os personagens de dentro para fora.

O mais interessante é como “Platoon” transforma a guerra externa em um conflito interno. O inimigo está na mata, invisível e imprevisível, mas a batalha moral acontece dentro do próprio grupo. Quando o pelotão entra em vilarejos suspeitos, quando a linha entre suspeita e paranoia se embaralha, as diferenças entre Barnes e Elias deixam de ser apenas ideológicas e passam a ter consequências concretas. Chris observa, hesita, aprende. Ele começa o filme querendo ser um herói; ao longo da narrativa, precisa decidir que tipo de homem será naquele contexto.

Charlie Sheen entrega um Chris que não é um líder nato nem um mártir predestinado. Ele é um jovem assustado tentando se adaptar. Sua transformação é gradual e dolorosa. Já Tom Berenger constrói um Barnes inquietante, cuja convicção rígida é tão impressionante quanto perturbadora. Willem Dafoe, por sua vez, dá a Elias uma presença quase espiritual, mas nunca idealizada demais; ele também é um homem marcado pela violência que tenta, do jeito que pode, evitar que o caos seja absoluto.

“Platoon” expõe como a guerra embaralha valores, acelera amadurecimentos e força escolhas que deixam marcas permanentes. Ao acompanhar Chris no meio desse pelotão dividido, o filme deixa claro que o maior campo de batalha talvez não seja o território disputado, mas a consciência de quem está ali. E é justamente essa dimensão humana, crua e desconcertante, que faz da obra de Oliver Stone um dos retratos mais impactantes e honestos sobre o Vietnã já levados ao cinema.

Filme:
Platoon

Diretor:

Oliver Stone

Ano:
1986

Gênero:
Drama/Guerra/Tragédia

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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