Curitiba, 1989. Chove fino; as lâmpadas amarelas da Rua XV tremem sobre o calçadão de pedra. Paulo Leminski encosta os cotovelos no balcão de um bar do centro; as unhas manchadas de nicotina, o cigarro risca o ar e fica um cheiro que arde na garganta. Ele fala baixo, mais pausa do que voz, e o sarcasmo abre espaço onde a noite não abre. O corpo, cobrado por anos de excesso, pede trégua; a cabeça ainda acende versos curtos, faíscas que atravessam a conversa e ficam no ar, em queimadura recente. Entra um amigo, depois outro; uma risada curta, um aparte que fere, uma citação desloca a mesa do lugar. Lá fora, o país prepara a volta do voto direto para presidente, pela primeira vez desde 1960; aqui dentro, o relógio parece esquecer as horas. Ele sabe: as urgências não negociam. Cada palavra desce ardida, e a madrugada, pequena demais, empurra o corpo até a borda. Se a vida coubesse inteira, ele pediria mais um minuto. Não cabe.
O primeiro endereço foi Curitiba, em 1944. De um pai polonês e de uma mãe de ascendência portuguesa, negra e indígena, ele trouxe duas heranças que não se anulavam: empurravam-no. Na cidade de pós-guerra, entre colégios rigorosos, missas de domingo e bancas de jornal, aprendeu que o repertório cabia inteiro na mesma mesa. Leu cedo, e leu muito. No tatame encontrou o peso do gesto que os livros nem sempre dão e se tornou faixa-preta em judô. Dessa disciplina veio a frase breve: precisão, silêncio, queda. Mais adiante o corpo cobraria a conta; por enquanto, toda palavra caía no tatame com um som seco, no ponto certo.
Nos anos 1960, ele agitava o ar ordeiro de Curitiba. A cidade, cinza e regrada, engoliu resmungando o rapaz de cabelos compridos que falava de Mallarmé e de música pop com a mesma naturalidade. Ele se aproximou do concretismo, conversou de igual para igual com Augusto e Haroldo de Campos, e recusou a docilidade de qualquer escola. Preferiu as frestas: linhas enxutas que estalavam no ouvido, humor que arranhava superfícies limpas, e “Catatau” (1975), romance-labirinto que imagina René Descartes perdido no Brasil holandês, no Recife de Nassau, sem norte entre o calor, a cana e uma língua que desafina a razão.
A biografia de um poeta também se escreve em vozes alheias. Com Caetano Veloso e Gilberto Gil, a conversa deslizava entre canção e país; com Itamar Assumpção, ganhava malícia rítmica e coragem de erro; com Haroldo de Campos, encontrava risco e precisão de leitura; com Moraes Moreira, Ney Matogrosso e Arnaldo Antunes, as canções viravam prova de fogo para a palavra curta que ele trazia do caderno. Não era vitrine social, era parentesco de invenção: gente que atravessava linguagens sem pedir chancela. Alice Ruiz, parceira de vida e de verso, sustentou uma conversa longa feita de cumplicidade, silêncios necessários, ciúmes discretos e paciência, uma casa para onde a febre voltava. Entre Curitiba, São Paulo e Salvador, na virada dos anos 1970 para os 1980, quando a censura cedia e as feridas ainda ardiam, os estúdios cheiravam a fita magnética e café; letras passavam de mão em mão, recados chegavam por telefone, e ele seguia no compasso grave de um tango que não promete alívio. Havia alegria nesses encontros, e havia também uma sombra: cada parceria lhe dava fôlego e cobrava fôlego. E ele pagava.
A capital não servia de fundo; respondia. Nas administrações de Jaime Lerner, entre os anos 1970 e 1980, a cidade, com a sua vontade de ordem e com o seu céu baixo, oferecia palco e resistência ao mesmo tempo. Paulo Leminski atravessava praças, sebos, bibliotecas e salas de estar onde nasciam saraus improvisados; largava frases no ar, e elas voltavam dias depois, como um refrão sem cerimônia. O rótulo de “maldito” veio mais do conforto dos outros do que de alguma verdade íntima: ele não enfeitava a queda, ele a admitia. A lenda cresceu com sola gasta, com cartazes de show dobrados no bolso, com cadernos marcados pelo suor da mão. A cidade o contrariava depressa e o amava devagar, e essa demora do afeto doía. Ainda assim, quando a noite descia sobre as araucárias molhadas, Curitiba parecia ler o que ele escrevia e devolver, na mesma língua, uma resposta que fere.
Não houve segredo nem verniz. Houve álcool, houve drogas, houve madrugadas que não terminavam, coladas em manhãs sem perdão. Os avisos chegaram por exames e por cansaços que não recuavam; o fígado acendeu uma luz amarela e a respiração encurtou degraus. Em meados dos anos 1980, enquanto o país tentava organizar esperanças e preços, uma parte da crítica preferiu chamá-lo de ligeiro, de publicitário, de efeito fácil: erro que confunde precisão com facilidade e vida de rua com truque. Ele não vendia tragédia; admitia o estrago e seguia escrevendo. Sobre a mesa, ele limava as sílabas até que brilhassem sem excesso; na cozinha, o copo suava na fórmica e retirava um minuto do futuro a cada gole. O riso vinha, mas deixava um travo metálico. Havia mãos estendidas, e havia uma correnteza que puxava com força. Até o fim, o poema ficou aceso dentro do quarto, luz pequena que aquece e queima ao mesmo tempo.
Com “Caprichos & Relaxos” (1983) e “Distraídos Venceremos” (1987), o país entendeu o alcance do que ele vinha construindo. Entre as Diretas e a Constituição de 1988, os livros passaram de leitor em leitor, das mochilas aos pátios de escola e às calçadas do centro; a linha breve encostava filosofia na fala de rua sem pedir cerimônia. Ele se tornou, contra o costume, um poeta popular sem desmontar o risco, pop demais para os puristas, intricado demais para quem queria slogans. A travessia era o seu lugar: cabiam ali o corte exato e o improviso, a biblioteca e o rádio ligado, a citação que mordia e o chiste que salvava. Em 1987, dois anos antes do fim, o nome já estava no centro do mapa, e a juventude o reconheceu de imediato. O que parecia leveza era densidade portátil, poucos centímetros de papel com peso suficiente para mudar o ar de uma sala.
A concisão exigia uma arquitetura que quase não se via: uma imagem, duas palavras, um corte que seguia vibrando depois do ponto. O leitor era chamado a completar a travessia e a ouvir o eco do que permanecia em suspenso. Essa economia incandescente, de órbita própria, aproximou músicos e artistas, que reconheceram nessa faísca um compasso para o próprio trabalho. A fala direta, às vezes áspera, nunca entregava a chave inteira. A poesia preferia o segredo vivo, aquele que age por dentro enquanto a cidade corre; ficava entre as páginas do caderno e alterava o fôlego de quem lia. Havia fulgor, e havia uma disciplina inscrita no corpo, o preço viria depois, já anunciado nas pausas.
Quando a página pedia melodia, ele entregava os versos à garganta de cantores e de compositores. Em estúdios de São Paulo e de Curitiba, nos anos 80, a dicção curta encontrava o compasso, e as sílabas batiam na madeira do palco antes de voltarem com outra luz. Em palcos pequenos e em teatros de bairro, o teste era simples: se a linha atravessasse a passagem de som e o zumbido da mesa, ela estava viva. Ele apertava a linha até ela respirar no tempo do instrumento; trocava um acento, deslocava uma pausa, deixava uma ferida aberta para a nota alcançar. Não havia fronteira: o refrão caminhava da noite para as emissoras e voltava com histórias. Havia alegria, e havia um fundo escuro: cada canção lhe dava fôlego e cobrava ar. Ao fim da sessão, a luz vermelha se apagava, e ficava no ar um rastro quente, aquilo que a música salvou por um instante e a vida insistia em cobrar.
Os sinais do corpo vieram antes das palavras. Nos meses finais, houve internações curtas, exames, promessas de pausa que não duravam; o fígado acendeu um alerta teimoso e o peito perdeu fôlego nas escadas. Amigos e família passaram pelo quarto, levaram livros, deixaram recados, ouviram piadas que já não escondiam a dor. Na noite de 7 de junho de 1989, em Curitiba, a luz fria do Hospital Nossa Senhora das Graças desenhava sombras compridas nas paredes; ele tinha 44 anos e uma lucidez que feria. Não pediu heroísmo nem desculpa, ouviu os ruídos do hospital como quem escuta o fim de uma canção que amou demais. Quando o corpo parou, a voz ficou. Na manhã seguinte, o velório na Reitoria da Universidade Federal do Paraná reuniu gerações que aprenderam a respirar em seus versos; mais tarde, o enterro no Cemitério Água Verde devolveu o silêncio à terra. O país contava os dias para escolher um presidente; Curitiba, naquele dia, contou sílabas. A obra permaneceu acesa, pequena e quente, como o lume que sobra depois que a chama baixa, o suficiente para iluminar o que resta e para lembrar que queimou.
Hoje o nome dele sai do anfiteatro a céu aberto que a cidade lhe deu e entra nos cadernos de escola; passa por cartazes de show, por murais de biblioteca, por listas de leitura que trocam modas, mas não o esquecem. A influência respira em poetas que lapidam a linha até o osso, em músicos que tratam a palavra como percussão íntima, em artistas que encontram no verso curto uma faísca para acender imagem. Curitiba, que tantas vezes lhe ofereceu resistência, agora lhe devolve palco e endereço; a homenagem chegou tarde, e por isso pesa mais. As reedições recolocaram os livros nas prateleiras e nas mochilas; leituras públicas, aulas e discos mantiveram a voz em circulação. O que ficou tem o tamanho de um bolso e o peso de uma pedra, cabe em qualquer lugar e altera o ar à volta. A tradição que o cercava, do concretismo ao haicai, do tropicalismo às experiências de estúdio, não virou vitrine, virou uso diário, objeto de bolso que trabalha por dentro. E, no fundo, há sempre o mesmo fio trágico, a cidade celebra, o papel resiste, e quem lê descobre que o brilho ainda corta porque veio de um corpo que queimou cedo demais.
Há quem insista na lenda do “poeta maldito”. A etiqueta facilita resumos e dispensa perguntas difíceis, mas empobrece o que interessa: a paciência do ofício sob a gargalhada, a ferocidade do afeto dentro da ironia, a escolha diária por uma frase que não trapaceia. Ele não vendia desespero. Admitia a queda, mantinha o punho firme e escrevia com uma claridade que feria. A leveza que tanta gente confundiu com superfície tinha peso específico e marcava a pele de quem lia. Não houve atalho, não houve truque. Houve trabalho diário, risco aceito, alegria que doía nas bordas.
E então o pano desce. O ano é 1989 e há leitores que ainda não tinham nascido quando o corte aconteceu, leitores que hoje abrem um livro dele para respirar melhor um dia ruim. A cidade aprendeu a dizer o nome com respeito calmo; o país, aos poucos, entendeu que aquela voz curta sustentava um horizonte inteiro. A morte chegou cedo e levou o corpo, mas legou uma partitura incompleta que pede continuação no peito de quem escuta. Cada verso que ficou mantém um pulso próprio, uma claridade breve que não cede à corrente do esquecimento. Quem fecha o livro percebe que a sala mudou de temperatura. Há uma perda que não cicatriza e, dentro dela, uma gratidão difícil de carregar. Ele viveu depressa demais, dizem. Talvez. O que permanece não pede defesa, atravessa o tempo, entra pela respiração, ocupa a casa por inteiro e, quando se vai, resta na mesa um silêncio que brilha.
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