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Drama na Mubi é uma jornada de autoconhecimento e recomeço

Logo no início de “Something, Anything”, Peggy (Ashley Shelton) está exatamente onde ela gostaria estar: noiva de Mark (Bryce Johnson), com um bom emprego no mercado imobiliário e grávida do primeiro filho. A vida segue um roteiro previsível e confortável, desses que rendem fotos sorridentes e conversas tranquilas em jantares de família. Só que esse roteiro sofre uma interrupção brusca quando Peggy perde o bebê, e a partir daí o que parecia sólido começa a desmoronar de maneira silenciosa, porém irreversível.

A reação de Peggy à perda não é explosiva nem melodramática. Ela simplesmente desacelera, ou melhor, interrompe. Enquanto Mark tenta manter a rotina funcionando, como se a normalidade pudesse ser restaurada por insistência, Peggy começa a se afastar. Ela evita conversas, se distancia dos amigos e passa a observar a própria vida como alguém que já não se reconhece ali.

A decisão de sair de casa vem sem grandes anúncios. Peggy arruma suas coisas essenciais e deixa o apartamento que dividia com Mark, abrindo um espaço físico que traduz o que já vinha acontecendo por dentro. Esse movimento tem um efeito imediato: ela perde o conforto da vida compartilhada e, ao mesmo tempo, assume o controle, ainda que precário, das próprias escolhas.

A carta que abre uma fresta

É nesse momento de suspensão que surge Tim (Linds Edwards), um antigo colega de escola que agora vive como monge. Ele envia uma carta de condolências, simples, sem promessas de cura ou respostas prontas. Peggy responde. E esse gesto, aparentemente pequeno, cria uma nova linha de contato com o mundo.

A troca de cartas funciona como um tipo de ancoragem. Enquanto tudo ao redor parece desorganizado, ali existe um ritmo, uma escuta, uma presença que não exige desempenho. Tim não invade, não orienta, não tenta resolver, e talvez seja justamente isso que atrai Peggy. Ele oferece um espaço onde ela pode existir sem precisar corresponder a expectativas imediatas.

Reduzir para continuar

Paralelamente, Peggy começa a desmontar a própria vida material. Ela abandona o emprego bem remunerado no setor imobiliário e aceita uma função modesta como assistente em uma biblioteca. A mudança não é só profissional; é quase uma reconfiguração completa de prioridades.

Na biblioteca, ela organiza livros, atende leitores e se insere em um ambiente onde tudo é mais lento, mais silencioso e, de certa forma, mais honesto. Não há metas agressivas nem pressão por resultados. Há tarefas simples, repetidas, que ajudam a estruturar os dias. É pouco, e ao mesmo tempo, naquele momento, parece suficiente.

Ela também reduz seus bens, troca de carro, corta excessos. Não como um gesto simbólico grandioso, mas como uma tentativa prática de alinhar a vida externa com o que sente internamente. Cada escolha diminui seu alcance, mas também reduz o ruído.

Entre respostas e ausência delas

O encontro com Tim, quando finalmente acontece, carrega uma expectativa que o filme trata com cuidado. Não há revelações transformadoras, nem discursos iluminadores. Tim escuta, compartilha sua própria experiência, mas não assume o papel de guia espiritual que resolveria tudo.

Em determinado momento, ele demonstra sentimentos por Peggy, mas a situação não evolui da maneira que se poderia esperar em um romance tradicional. Há ali uma hesitação, uma falta de encaixe, como se ambos estivessem em momentos diferentes, ou buscando coisas que não se completam.

Esse desencontro não soa como fracasso, mas como continuidade da incerteza. Peggy não encontra em Tim uma solução, e o filme não tenta disfarçar isso. Pelo contrário, insiste nessa ausência de respostas como parte central da experiência.

Um caminho sem garantias

De volta à sua rotina mais simples, Peggy segue trabalhando na biblioteca e mantendo distância da vida que deixou para trás. Mark ainda aparece, tentando reabrir um diálogo, mas ela não cede facilmente. Não por frieza, mas porque retornar significaria ignorar tudo o que mudou.

O que “Something, Anything” faz, com uma paciência quase teimosa, é acompanhar esse estado intermediário, nem ruptura total, nem reconstrução clara. Peggy continua, dia após dia, tomando pequenas decisões que não resolvem tudo, mas que também não a devolvem ao ponto de partida.

E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua força e também sua limitação. Ao evitar grandes viradas, ele se mantém fiel à experiência de quem está perdido, mas ainda em movimento. Não há respostas fáceis, nem finais reconfortantes. Há, no máximo, a sensação de que seguir em frente, mesmo sem saber exatamente como, já é uma forma de escolha.

Filme:
Something Anything

Diretor:

Paul Harrill

Ano:
2014

Gênero:
Drama/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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