A fama pode transformar força em espetáculo, mas cobra caro quando o corpo começa a falhar e a vida íntima pede socorro. Em “Coração de Lutador”, dirigido por Benny Safdie, acompanhamos a fase mais intensa da carreira de Mark Kerr, vivido por Dwayne Johnson, um dos grandes nomes do MMA nos anos 1990 e 2000, enquanto ele tenta equilibrar vitórias no octógono, dependência química e um casamento pressionado pela rotina brutal do esporte.
Kerr aparece no auge: contratos relevantes, lutas televisionadas, prestígio dentro do UFC. Ele aceita combates em sequência porque sabe que o topo é instável e que o ranking não espera. Cada assinatura garante dinheiro e visibilidade, mas também reduz o tempo de recuperação e aumenta o desgaste físico. O filme deixa claro que, naquele ambiente, recuar pode significar perder espaço, e Kerr não quer sair do centro das atenções.
Fora do ringue, a história ganha outra temperatura. A dor acumulada pelas lesões leva ao uso constante de analgésicos, e o que começa como tratamento vira dependência. Johnson interpreta Kerr com uma vulnerabilidade que contrasta com sua imponência física; há um homem enorme em cena, mas visivelmente cansado. Ele tenta manter a rotina de treinos, cumprir compromissos e sustentar a imagem pública, porém a instabilidade começa a afetar decisões simples do dia a dia.
Emily Blunt vive Dawn Staples, esposa de Kerr, e é o eixo emocional do filme. Dawn observa atrasos, mudanças de humor e promessas que não se sustentam. Ela confronta, insiste em tratamento, exige responsabilidade. Não é uma figura decorativa: é alguém que impõe limites reais. A relação dos dois se torna um campo de negociação constante entre amor, frustração e medo de perder tudo o que construíram juntos. Blunt trabalha nuances com precisão, mostrando uma mulher dividida entre apoiar e se proteger.
No ambiente de treino, Ryan Bader interpreta um colega que funciona como termômetro da situação. Ele percebe a queda de rendimento, ajusta a intensidade dos treinos e tenta preservar o amigo da exposição pública. Há lealdade, mas também preocupação prática: no MMA, qualquer sinal de fraqueza pode custar caro. O grupo sente quando Kerr não está inteiro, e isso muda a dinâmica dentro da equipe.
Safdie conduz a narrativa com proximidade quase documental. A câmera permanece colada nos rostos, nos vestiários, nos corredores, como se o espectador estivesse sempre a um passo do impacto físico e emocional. As lutas não são tratadas como espetáculo glamouroso; são duras, cansativas, exigem preparo e deixam marcas. Ao mesmo tempo, o diretor evita transformar o drama pessoal em melodrama fácil. Ele observa os fatos e deixa que as consequências apareçam nas atitudes dos personagens.
O que torna “Coração de Lutador” envolvente é justamente essa recusa em simplificar. Mark Kerr não é retratado apenas como herói nem como vítima. Ele faz escolhas discutíveis, insiste quando deveria parar, recua quando já perdeu terreno. O filme acompanha esse vai e vem com honestidade, mostrando que a fama amplia tanto as vitórias quanto os erros.
Sem recorrer a discursos grandiosos, a obra expõe a engrenagem de um esporte que exige resistência física extrema enquanto cobra presença constante no mercado. Johnson entrega uma atuação surpreendentemente contida, distante do arquétipo invencível que costuma interpretar. Ao lado de Blunt, constrói uma relação que parece real, cheia de atritos e afeto misturados.
“Coração de Lutador” é menos sobre cinturões e mais sobre limites, do corpo, do casamento, da própria ambição. É um drama esportivo que entende o fascínio do octógono, mas se interessa ainda mais pelo que acontece quando as luzes se apagam e o lutador precisa encarar a própria fragilidade.
Filme:
Coração de Lutador
Diretor:
Benny Safdie
Ano:
2025
Gênero:
Biografia/Drama/Esporte
Avaliação:
8/10
1
1
Fernando Machado
★★★★★★★★★★
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