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Diploma em xeque a Medicina entra na era da desconfiança

Diploma em xeque a Medicina entra na era da desconfiança

O cenário atual da Medicina no Brasil nos mostra uma mudança cultural drástica na relação médico-paciente. O que antes era uma pergunta de “cortesia” ou mera curiosidade, doravante será um mecanismo de defesa do paciente/consumidor.

O diploma de médico está sob suspeita e não será julgado em nenhum tribunal composto por membros que se intitulam deuses ou ditadores; será julgado pela população que se apresenta para ser atendida.

O tempo em que o carimbo de “Médico” em um receituário era um selo indubitável de autoridade e competência pertence ao passado. Com o surgimento, aos borbotões, de faculdades (?) de Medicina sem a mínima infraestrutura, sem corpo docente decente e sem hospital para a prática médica, impôs-se à população brasileira ser refém de reles bacharéis em Medicina, cuja formação deve ser sempre questionada.

Agora mesmo, após a divulgação do resultado do ENAMED, o paciente haverá de questionar o médico que o atenderá sobre como foi sua formação, onde ocorreu, se fez residência médica e, ao certo, haverá um questionário a ser respondido pelo esculápio antes de se submeter ao atendimento em serviços de urgência/emergência.

“Onde o senhor se formou?” será a primeira pergunta a ser proferida pelo doente, e não “Doutor, estou com…”. Essa pergunta, que ecoará nos corredores dos prontos-socorros, não é apenas uma curiosidade acadêmica, mas um filtro de segurança.

Por que chegamos a esse ponto de termos mais faculdades de Medicina do que a Índia, país com 1,46 bilhão de habitantes? Sabe-se — e está escrito em nossa história — que tudo começou no governo FHC, cujos dirigentes do MEC permitiram a criação de faculdades sem a instituição de um filtro mínimo para sua instalação. O povo brasileiro está acostumado a engolir mentiras ditas por seus mandatários desde a queda de Pedro II. Pior do que o ocorrido no governo retromencionado é o que vem acontecendo nos governos subsequentes, nos quais não existe filtro algum para nada e, com isso, a nossa Medicina está se destruindo, em que pese cerca de 70% dos que se graduam em Medicina terem uma boa formação.

Hoje, o Brasil conta com 494 faculdades de Medicina, sendo que, até 2004, tínhamos 143. Em termos proporcionais, 80% delas são particulares, cujos donos mantêm elos com governos ou políticos — ou são eles próprios políticos —, os mesmos que nos usurpam continuamente. Resta claro que os governos subsequentes não apenas inflaram sobremaneira o número de faculdades de Medicina, como também criaram e ampliaram mecanismos como o FIES e o PROUNI, não com o fito de ajudar o estudante, mas de transferir, de maneira legal, dinheiro do Estado para os donos dessas faculdades.

E agora, irão permitir que faculdades reprovadas continuem graduando? O mercado e o paciente assumirão o papel de auditores.

Esse cenário cria uma segmentação clara no mercado de trabalho: a elite da formação e a formação incerta.

A elite será composta por médicos oriundos de instituições tradicionais ou com residências médicas sólidas, que usarão sua origem como escudo de credibilidade.

A formação incerta será composta por graduados em instituições que priorizam o lucro sobre o ensino e que agora enfrentam o estigma da desconfiança antes mesmo de iniciarem a anamnese.

Em nenhum momento de nossa história um governante se preocupou verdadeiramente com a saúde de seu povo e, agora, parece que estamos perdidos, haja vista o atual mandatário-mor não demonstrar preparo suficiente para compreender aquilo que tentei explanar a meus pares.



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