“Um Crime Passional” acompanha Connor (Ray Nicholson), um homem que tenta reconstruir a própria vida depois de sair da prisão. Ele trabalha em uma biblioteca, segue regras rígidas da liberdade condicional e leva uma rotina previsível, quase apagada. Nada ali sugere grandes ambições, até que Marilyn (Diane Kruger) cruza o seu caminho e rompe esse equilíbrio frágil. A partir desse encontro, o filme passa a observar como desejo, frustração e fantasia começam a ocupar um espaço perigoso na cabeça de alguém que já vive no limite.
Connor não é apresentado como um anti-herói carismático, mas como alguém socialmente deslocado, inseguro e consciente de sua posição inferior. Ray Nicholson interpreta esse desconforto com um misto de apatia e tensão constante, deixando claro que qualquer passo em falso pode custar caro. Quando Marilyn surge, elegante, sedutora e cercada de privilégios, o contraste é imediato. Ela representa um mundo ao qual Connor não pertence, e talvez nunca pertença, e essa diferença é o que torna a relação tão atraente quanto arriscada.
Diane Kruger constrói Marilyn como uma presença ambígua. Ela nunca se oferece por completo, alternando momentos de proximidade com distanciamento calculado. Essa indefinição move a narrativa e mantém Connor em um estado permanente de expectativa, sempre tentando entender até onde pode ir. O filme observa essas interações com atenção, deixando que pequenos gestos e conversas carreguem o peso da tensão, em vez de recorrer a grandes viradas ou explicações fáceis.
Neil LaBute dirige a história com foco quase exclusivo nos personagens e em suas escolhas. A câmera se mantém próxima, acompanhando Connor em espaços cotidianos: ruas, trabalho, encontros discretos, que ganham uma carga emocional crescente. À medida que o envolvimento com Marilyn avança, o que antes parecia apenas uma fantasia pessoal começa a gerar consequências reais, especialmente para alguém que já vive sob vigilância e tem pouco espaço para errar.
Há momentos de humor desconfortável, principalmente quando Connor tenta se comportar como alguém que não é. Esses instantes aliviam a tensão por segundos, mas logo reforçam o abismo entre desejo e realidade. O filme deixa claro que não se trata de uma história romântica tradicional, mas de uma observação sobre carência, poder e autoengano.
“Um Crime Passional” não busca respostas nem oferece julgamentos morais fáceis. LaBute prefere acompanhar o acúmulo de escolhas mal calculadas e o modo como elas pressionam um personagem já instável. O resultado é um suspense psicológico contido, que aposta mais no desconforto do que no choque, e que se sustenta principalmente na dinâmica entre Ray Nicholson e Diane Kruger. É um filme sobre limites, emocionais, sociais e mentais, e sobre o custo de ignorá-los.
Filme:
Um Crime Passional
Diretor:
Neil LaBute
Ano:
2022
Gênero:
Crime/Drama/Mistério/Romance
Avaliação:
8/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★
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