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Deliciosa adaptação moderna de “Orgulho e Preconceito“, de Jane Austen, que rendeu indicação ao Oscar para Renée Zellweger, na Netflix

Em “O Diário de Bridget Jones”, dirigido por Sharon Maguire, Renée Zellweger vive Bridget Jones, que se vê dividida entre o chefe Daniel Cleaver, interpretado por Hugh Grant, e o advogado Mark Darcy, vivido por Colin Firth, enquanto tenta reorganizar a própria vida por meio de um diário que começa como promessa de controle e vira campo de batalha emocional.

Bridget tem 32 anos, trabalha em uma editora e está cansada de ser alvo das mesmas perguntas em jantares de família: quando vai emagrecer, quando vai casar, quando vai finalmente “se acertar”. Na virada do ano, ela toma uma decisão prática: compra um caderno e começa a registrar calorias, cigarros, taças de vinho e pensamentos que jamais diria em voz alta. O diário vira uma espécie de relatório íntimo. Se tudo estiver anotado, talvez seja possível melhorar. O problema é que colocar no papel também escancara padrões que ela preferia ignorar.

No escritório, Daniel Cleaver é o tipo de chefe que mistura charme e irresponsabilidade com naturalidade perigosa. Ele envia e-mails insinuantes, provoca, seduz e cria uma proximidade que parece promissora. Bridget, lisonjeada, aposta nessa relação como chance de finalmente viver uma história intensa. Só que flertar com o próprio chefe altera o equilíbrio no ambiente de trabalho. Cada mensagem trocada aumenta a expectativa e, ao mesmo tempo, coloca sua credibilidade em risco. O que começa como brincadeira ganha peso real.

Mark Darcy surge em outra frente. Advogado sério, amigo da família, ele não impressiona à primeira vista. O primeiro encontro é constrangedor, cheio de silêncios e julgamentos apressados. Bridget reage com ironia e impaciência. Ainda assim, novos encontros revelam camadas que ela não tinha considerado. Ao manter contato com Mark, Bridget cria uma alternativa concreta ao caos emocional que vive com Daniel. Essa escolha amplia suas opções, mas também exige maturidade para rever preconceitos.

A comédia do filme nasce justamente das tentativas desajeitadas de Bridget de se proteger. Ela usa o humor como escudo quando erra roupa, exagera na bebida ou fala demais. Ri de si antes que os outros riam. Em festas e reuniões, transforma situações embaraçosas em pequenos espetáculos de autossabotagem divertida. Funciona por alguns minutos, porque o riso suaviza o constrangimento. Mas depois que a música para, ela volta para casa e registra tudo no diário, encarando os fatos sem plateia.

Sharon Maguire conduz a narrativa com leveza, mantendo a câmera próxima de Bridget nos momentos íntimos e ampliando o quadro quando ela está exposta socialmente. Essa alternância deixa claro o contraste entre o que ela sente e o que o mundo vê. O quarto é espaço de confissão; o escritório e os eventos familiares são arenas públicas onde cada gesto é observado. Essa diferença pressiona Bridget a decidir quem ela quer ser quando ninguém está olhando.

O mais interessante é que Bridget não busca apenas um homem; ela tenta recuperar controle sobre a própria narrativa. O diário, que começou como lista de metas superficiais, vira instrumento de autoconhecimento prático. Ao reler o que escreveu, ela identifica padrões, exageros, ilusões. Percebe onde insiste demais e onde desiste cedo. Não há revelações mágicas, apenas constatações incômodas que exigem ação.

“O Diário de Bridget Jones” trata inseguranças comuns sem transformar a protagonista em caricatura cruel. Renée Zellweger constrói Bridget com vulnerabilidade e timing cômico afiado, enquanto Hugh Grant explora o charme ambíguo de Daniel e Colin Firth sustenta a reserva de Mark com firmeza contida. O filme diverte, sim, mas também expõe o custo de tentar caber em expectativas alheias. E quando Bridget fecha o diário depois de mais uma decisão importante, não há garantia de perfeição, apenas a certeza de que ela finalmente assumiu as próprias escolhas.

Filme:
O Diário de Bridget Jones

Diretor:

Sharon Maguire

Ano:
2001

Gênero:
Comédia/Drama/Romance

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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