“Constantine” parte de uma premissa simples e incômoda: o mundo é um território em disputa permanente entre forças que pouco se importam com o destino humano. Essa ideia, longe de ser apenas decorativa, organiza toda a narrativa do filme dirigido por Francis Lawrence e define o tom desencantado que o atravessa do início ao fim. Não há promessa de redenção fácil nem conforto espiritual. O que se vê é um universo regido por regras rígidas, quase burocráticas, onde o livre-arbítrio existe, mas cobra um preço alto de quem ousa exercê-lo.
O protagonista John Constantine, interpretado por Keanu Reeves, é apresentado como um exorcista que transita entre o mundo dos vivos e o inferno após uma experiência de quase morte na juventude. Marcado por um câncer terminal e pela certeza de uma condenação iminente, ele não age por altruísmo, mas por cálculo moral: salvar almas como tentativa tardia de negociar seu próprio destino. Reeves constrói um personagem contido, de gestos econômicos e fala seca, que se alinha a essa lógica pragmática. A aparente monotonia vocal não compromete a função dramática do personagem, que depende mais da postura corporal e do olhar cansado do que de explosões emocionais.
A entrada de Angela Dodson, vivida por Rachel Weisz, introduz o eixo investigativo do enredo. A policial busca respostas para o suicídio da irmã gêmea Isabel, também interpretada por Weisz, e se recusa a aceitar explicações sobrenaturais. Essa resistência inicial não serve apenas como contraste narrativo, mas como ponto de ancoragem racional para o espectador. A trajetória de Angela é menos sobre fé e mais sobre coerência: compreender um sistema que opera à margem das leis humanas. A relação com Constantine se estabelece por necessidade mútua, não por afinidade, e essa dinâmica evita romantizações desnecessárias.
À medida que a investigação avança, o filme explicita sua visão hierárquica do bem e do mal. Gabriel, interpretado por Tilda Swinton, surge como uma figura ambígua, distante da imagem tradicional do anjo benevolente. Sua atuação aposta na frieza e na ausência de empatia, sugerindo que a crueldade pode coexistir com a ideia de ordem divina. Em oposição, Balthazar, vivido por Gavin Rossdale, representa o caos violento e direto, funcionando como executor de interesses maiores. O confronto entre essas entidades revela que a disputa central não é moral, mas estratégica.
O ponto de inflexão ocorre com a aparição de Lúcifer, interpretado por Peter Stormare. Em poucos minutos, o personagem redefine o tom do desfecho. Sua presença não se apoia na grandiloquência, mas em um sarcasmo controlado e em uma compreensão absoluta das regras do jogo. Lúcifer não precisa ameaçar; ele observa, negocia e interfere apenas quando lhe convém. Esse encontro final esclarece o tema central do filme: a salvação, quando existe, nasce menos da fé do que da escolha consciente diante da própria ruína.
Narrativamente, “Constantine” sofre com um ritmo irregular e demora a explicitar seus objetivos centrais. Ainda assim, mantém coesão ao articular investigação policial, mitologia religiosa e drama existencial em um mesmo eixo. O uso de efeitos práticos e digitais sustenta o universo proposto sem transformar o espetáculo em distração vazia. O resultado é um filme que não busca agradar amplamente, mas sustentar uma visão de mundo consistente, na qual o ser humano é responsável por suas decisões, mesmo quando cercado por forças que operam muito acima dele.
Filme:
Constantine
Diretor:
Francis Lawrence
Ano:
2005
Gênero:
Ação/Fantasia/Mistério/Suspense/Terror
Avaliação:
9/10
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Fernando Machado
★★★★★★★★★★
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